sábado, 29 de dezembro de 2007

Não leio romances

Certa vez li um romance onde o personagem dizia que uma relação termina quando na ausência de esperança naquela relação corremos a ver esperança noutro lugar. Dizia ele que este outro lugar não precisava ser outra pessoa, outra relação, outra vida. Muitas vezes era essa a única forma de, inclusive, preservar o amor.
No livro, o personagem dizia desencontrar-se da mulher amada por uma transposição gradual de esperança para outra vida, no caso, imprescindível a ele naquele momento.
Foi quando um de seus amigos, atento e preocupado, perguntou-lhe:
-Mas esperança imprescindível de que?
E ele respondeu em tom enfático:
-De permanecer!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Maldito Sentimento

Maldito sentimento
Que toma-me em veneno
E corrói-me por dentro,

Odeio até mesmo odiar-te
Pois que a mim deste mito viciar-te,
E agora fico entregue ao teu contento!
Só de vazia ansiedade me alimento
Em teu químico tear embriagado

Mas mesmo sem futuro ou sem virtude,
Embora vil és tão bonito
Que de teu mal não vos desejo

E mais maldita é tua sina
Até que minha ilicitude!

Destarte a própria intensidade
Inversa a vossa infinitude
Que invés da morte a piedade
O que te anseio é que se mude.


Stevens, verão de 2007

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

O Portão

Ela estava tomando água bem devagarzinho e ao mesmo tempo olhava fixo para a janela. Não que esperasse algo, é que lá fora estava a chover demais. Coisas de três da tarde, uma perna no chão a outra balançando freneticamente no braço do sofá. O filme da TV parecia uma daquelas bobagens interessantes, mas lutava para chamar-lhe a atenção. Quando foi como se ouvisse barulho no portão. Daquele sofá, de relance parecia a ele, mas antes que ela pudesse se levantar ele já não estava mais ali. Pensou coisa estranha, depois lembrou. Mesmo sabendo o que ele queria realmente não estava interessada.
Só mais a noitinha, quando abriu o portão para a mãe, ela encontrou o envelope branco e molhado, já um tanto amolecido de umidade. Nem precisava abrir para saber que era uma carta de amor ridícula, como as do Álvaro de Campos. Desengonçada e não muito grande, foi primeira ali olhada, com a mãe ainda parada no portão. A senhora de sorriso estampado e florido chacoalhou o guarda-chuva e perguntou do que se tratava a escritura, mas a menina, cheia de caprichos, fechou o rosto e a carta dizendo que era coisa dela.
Devagaringo, como se bebesse água, subiu na direção sentindo-lhe pulsar um pouco de vaidade. Propositada e preguiçosa, jogou-se na cama e se abriu definitivamente, a menina e a carta:

Uma epígrafe de tinta borrada dizia, "MICHELLE, MY BELLE. SONT LES MOTS QUI VONT TRES BIEN ENSEMBLE". A letra era bem traçada, declinada para direita e de longas extremidades, mereceu um suspiro.

Acalmo-me. Não te verto linhas de ilusão nem mágica, verto-te aqui desculpas. Creio que já as dei a mim mesmo e foi ao bel prazer de meu corpo que declinei nossa amizade. Pura vilania esta minha!

Para consolar-nos preciso servir minha explicação embriagada. Distinto de ti sou dado as justificativas, não bebo e foi logo isso que me pareceu tamanho vilipendio. Relicário delicado, nossa amizade foi daquelas em que nada se poderia forçar, e por essa minha brutalidade ter quebrado quase tudo, agora até mesmo a carta me parece força bruta.

Sabes que escrevo mais para mim do que para ti. Sei que me considera, e assim funciona esta verdade. Também te considero muito, minha rara, e são estas linhas as de um lamento doído pelo custo da cumplicidade. Pense tu, vendi-a como se fosse o mais natural amigo perdendo toda naturalidade. Mas dizem os poetas ser assim coisas de amor truncado.

My Belle, não se dá volta neste caminho, reserva-nos o futuro um gosto de café requentado, mas é evidente que o tempo nos fará o vil favor de dar-nos o esquecimento. Aos poucos isso tudo é apenas fato e aqui, como disse, só lamento o dissabor de nosso estado.

Ainda há fôlego para terminar a missiva armando uma armadilha. A ti revelado e a mim descrente ficou fácil descrever-lhe o que vi em minha letargia:

Mais que amor seria a nossa companhia. E eu a quero real, despida de pudores. Quero-te natural e sem os mitos do sobrenatural. O sentido será a cada encontro, nem antes, nem depois. E não há planos para os dois, inda mais presente que não englobe a todos. Não há descompasso, a lucidez cede quando há impasse sem que nos envergonhemos de nossos próprios embaraços. Nesse não lugar, sem nome ou lei, tudo melhora nosso olhar, em história e no contar não sou senão vosso igual, e em nossa terra não há reis.

A única condição inusitada, daquela que nos provoca tímido gosto de mágica, mora em exponenciarmos nossas virtudes e a isso render-nos nossas vidas, pois que já sendo muito, já somos cada um em si no próprio espaço e muito mais que o dobro quando juntos.

Deixo-te então essa utopia, quem sabe a catarse de um tipo de beijo que algum dia, alguém possa descrever-me.

Utopia,

Paul


As rimas fáceis, de amor ridiculo, ele realmente guardou. Michelle, um tanto desconcertada, deitou de vez as costas na cama e suspirando novamente, lamentou. Com uma certa delicadeza a carta amassada foi dobrada junto ao peito. Tudo isso durou um instante.
Logo o cheiro de janta acompanhado do grito de sua mãe a fez abandonar o entento num canto de quarto qualquer. E foi naquele singelo levantar que sua vida mudou pra sempre.
Paul aparentemente sumiu de sua memória e do portão, mas foi somente no portão que ela deu lugar a John. Até hoje o resto é Paul...

Campos De Morangos Para Sempre

Deixe-me te botar pra baixo
Porque eu estou indo aos Campos de morangos
Nada é real
Não há por que esperar
Campos de morangos para sempre

Viver é fácil com os olhos fechados
Sem entender o tudo que você vê
Está ficando difícil ser alguém
Mas tudo parece funcionar bem
E isso não é muito importante pra mim

Acho que não tem ninguém na minha árvore
Quer dizer, deve estar alto ou baixo
Ou seja, você sabe que não pode entoar
Mas tá tudo certo
Assim, penso que não é tão ruim

Sempre, não, algumas vezes penso que sou eu
Mas sabe, eu sei quando é um sonho
Eu penso que um Não significara um Sim
Mas tá tudo errado
Por isso eu acho que discordo

Aquilo que escrevo são as minhas falas nos diálogos que terei com o meu suposto futuro, quanto as falas futuras, obviamente, não as tenho. Nenhuma das histórias terá começo, meio ou fim. São todas elas simultâneas, e aqui as colocarei porque preciso esgotá-las. Não me cabem mais e não cabem mais em mim. O post será longo, logo, peço a mim paciência. Também devo avisar-me que me arrependo e aproveito para pedir-me desculpas por ter deixado maltratar-me tanto...

Bando.leiros.com

Ele me ligou e dizendo do apartamento. Sempre teve um passo a frente. Mas muito melhor do que o apartamento foi o fato de que ele me ligou. Desde Cuba ele jamais havia me ligado novamente. Falamos-nos algumas poucas vezes, mas a iniciativa foi toda minha e pouco importa, o que importa é que ele me ligou.
Hoje, na Câmara Municipal, nos encontramos para a luta. A favela do RealPark foi desocupada de forma ilegal, com destruição de bens pessoais e repressão policial. A defensoria é fraca, e seu pedido de liminar ridículo. Muitos movimentos estavam lá, inclusive o Jejê do movimento Sem Teto. Sexta a noite já temos compromisso, acaba a trégua da PM e o pau vai comer.
Mas, como disse, é o depois que importa agora. Fomos a casa dele e chamamos o Rafa. Por alguns instantes estava (re)formado o triângulo da ilha e Santo Amaro. E então me contaram, me deixavam o apartamento para viverem, com outros oito, a nossa idéia de bando!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Como não posso fugir de mim mesma,
fujo da minha vida.
Não quero vê-la por uns tempos.
Não estamos nos entendendo.
Quero ficar debaixo da cama,
com livros e lanternas,
esperando o dia passar...
E que ele passe bem devagar!
Quero dormir o sono dos vampiros,
vasculhar os sonhos,
e acordar em outros tempos.

Katia, dez 2007

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Ele gosta de diálogo-fragmento e eu gosto dele de verdade...

Em semanas tão intensas não sei como meu desespero arruma tempo confessionário publico-virtual. Mas aqui eu não sei quem é o padre e o padre não sabe quem sou eu. Talvez por isso, faça toda diferença...
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No devaneio do trecho marxista sobre arte, saimos da Bela Vista em direção ao parque. Futebol de terça e livro de sebo achado a dedo, onde Marx falava daquilo que nosso olho não vê, Marx era um grande sociólogo oftalmologista, dos qe curarm cegueiras. Em segundos pulamos para Antonioni, era o filme BlowUP, creio. Gostamos de Antonioni (e esse argumento é dele) porque Antonioni coloca seu filme de verdade entre as frestas dos tolos argumentos dos cotidianos abundantes. Contava-me que, no filme, o personagem principal era um fotografo meio hedonista e foi nessa hora passávamos pelas fontes do Ibirapuera em pleno rush. Num dia de shot casual o fotografo descobre, num canto casual, da foto casual, um possível crime que não tem final e não é casual. Passada então as fontes luminosas, perguntei-lhe se fotografia era reprodução ou representação do real, ponto chave e xeque-mate da conversa. Um pouco antes discutíamos o incomodo em saber da existência de limites mentais, daqueles raros, mas que só não alcançamos pelas escolhas que fizemos... E babem-se reverências aos amigos intelectuais que respeitamos, mas mentalmente não alcançamos. Então, ele respondeu:

- Representação, mas por quê:
- Veja, porque nos permite ver aquilo que o olho não vê, logo, é representação. Essa aí é a do Walter Benjamin.
-Putz, é mesmo.

Chegamos ao futebol. Stop no papo, luxei o dedo anelar da mão esquerda, mas mesmo assim jogamos bem. Coisa casual, futebol hedonista, reprodução pra caramba, mas o filme é de verdade e adoramos o Benjamim...

domingo, 2 de dezembro de 2007

Quatro em um

Quando eu cheguei ali a roda estava armada. O menino mais bonito era também o mais feio, e seus movimentos desesperados esvaiam-se de sua imagem e verso rebuscado. O outro olhava suave, só ponderava coisas em tons amigáveis, e com alguns desvios de verdade era como se tivesse uma sensibilidade a cumprir pelo afeto que sentia aos dois primeiros. Havia ainda uma quarta parte, mas estava sempre distanciada e estrangeira dos demais, não que faltasse simpatia ao homem, em verdade era ele pura simpatia, mas as idéias de descaso arrastado, e uma certa delicadeza que lhe cabia, acabavam por não combinar com as tensões do grupo.
A ultima pessoa, de quem ainda não falei propositalmente, era quem em verdade lhes unia. Talvez, não por acaso parecesse ser única mulher num raio de cem quilômetros. Descrevê-la não é tarefa fácil, por conseguinte deve você imaginar que ela não era nada convencional, mas creio que não digo nas formas, digo nas maneiras. Seus movimentos eram raros nas moças da cidade, e se era uma forasteira, coisa que não sei, tinha sotaque leve. Estrangira sei que era.
Estava sempre chamando a atenção da roda, mas sem malicia, eram apenas toques e causos, sorrisos e bromas. Falava muito a respeito de si, quase o tempo todo. Era como se tivesse pressa para contar a própria vida, e era isso nos presenteava o pouco de sua fragilidade. No resto era como uma muralha sendo construída tijolo a tijolo.
O jovem mais feio, então, disputava exclusividade, vertia intenções amorosas desconcertantes, embaralhava-se em movimentos perigosos e falsetes mal calculados. O fato é que sua inabilidade era declarada, e de tão exposta, expusera todo um resto que deveria ser só dele, coisas que não publicisamos por óbvias razões.
Seus desfalques atormentavam a todos na roda. Afastava a quarta parte, confundia o olhar suave, desconcertava a moça. A mim, acabado de chegar, pouco afetava. Apenas me forcei a não sentir pena, mas dava-lhe compaixão porque conhecia bem os caminhos daquele labirinto.
A história não tem fim, trata-se de um grupo eternamente de pé na calçada da memória. São cinco, comigo na roda: a mulher-menina, raro canto inebriante de vida e movimento; um belo jovem, diminuido por ser culto refém de sua juventude e de seu tempo; um segundo rapaz iluminado e doce, perdido como se a vida por ele estivesse apaixonada; e o quarto, o sorriso afastado, quase um convite a sair daquela quadra de entranhas tão aparetemente mundanas.
Eu, quinto, sou o intruso locutor. Aqui dublo a voz velha e onipresente, que finge nunca se entregar aos outros quatro, mas declino-me a confessar ao amigo leitor: se finjo é porque nada sei sobre eles, é porque morro medo de meus heterônimos!

Bem treinados jogos de retórica

Eu sempre sonhei em ter uma banda chamada Gengivas Sangrentas. Mentira, inventei esse nome agora, mas serve para dizer que o bacana em uma banda é o entrosamento. Quando você toca parece que a harmonia da música se instaura entre os elementos, pelo menos naquele momento, e invariavelmente isso parece mágico. Parece, mas não é.

Não existem coincidências, são meros fenômenos estatísticos no universo das variáveis possíveis no gradiente das classes e suas determinações socioeconômicas e culturais. Não existe amor inexplicável, paixão é um fenômeno psíquico-químico e amor não passa de encontros circunstanciais dando espaço para afinidades eletivas e graus de convivência, tudo isso altamente simbologizado pelos paradigmas e necessidades biológicas e psíquicas daquele indivíduo, naquela cultura e naquele tempo.
Não há espíritos, logo não há pré-destinação metafísica, e não há Deus. Morreu acabou, o futuro é projeção especulativa. Família, infância e juventude são construções da nossa cultura, não existem fora dela, ou seja, sempre se pôde e sempre se poderá coexistir sem essas construções. A Justiça, liberdade e igualdade são conceitos igualmente construídos, se levados ao extremo de seus genéricos sentidos, distroem a diversidade que constitui a cultura que os constituiu. Implosão conceitual não existe, o mundo jamais será livre, justo e igual ao extremo. Assim também são os casamentos e direitos. Flexíveis, eles variam com a história e só fazem sentido lógico se aplicados em benefício do prazer e da transmissão egoística de nossos próprios genes na temporalidade que lhes convém.
Você mesmo é um coeficiente estatístico de acumulo e transformação de cultura através dos sentidos e processos cerebrais. A memória mais linda que você guarda na sua cachola meu nego, é um conjunto de equações químicas e físiscas, não passa disso. Sendo assim, você e a sua história são ridiculamente possíveis no plano do cálculo e da lógica.

Como você pôde ver, não tive a tal banda Gengivas Sangrentas. O que quero dizer é que se a tivesse tido e fosse um sucesso inexplicável, seria, assim, totalmente explicável.
E cá pra nós, viver assim, com tudo respondidinho no seu devido lugar, me parece absolutamente mágico. "Sorte" que nós céticos sabemos, mágica é apenas um truque bem treinado, mesmo que seja de pura linguagem! Não, é...

domingo, 18 de novembro de 2007

Na fila de um aeroporto qualquer eu grito seu nome...

...Nós moramos na Bela Vista, o apartamento é pequeno, mas o aluguel e condomínio são baixos, assim a gente não se importa em pagar.
Adoro ver você pela manhã, se esforçando para ser bem humorada. Uma vez você ficou grávida, mas o nervosismo da pós-graduação provocou um aborto natural.
Vamos muito ao cinema e temos muitos livros. Algumas vezes tentamos ir a teatro regularmente, mas os teatros são feito pisos irregulares em nossas vidas.
Eu tenho uma pequena moto, e você um carro usado e pequeno, mas gostamos de andar de ônibus e metrô. Passamos muitas horas sentados nas esquinas dos botecos de esquina, tentado desvendar a realidade em conversas intermináveis.
Compramos duas câmeras fotográficas e passamos muitos fins de semana caminhando pelo centro tirando fotos. Você adora ir aos parques e começou a fazer exercícios, mas sempre odiou. Eu fico fascinado com sua luta contra a própria vaidade, mas a verdade é que você é linda e faz um esforço danado pra se esquecer disso.
Vamos à rodoviária e compramos passagens pra cidades desconhecidas, você gosta de conhecer pessoas em novos lugares e isso nos dá uma falsa idéia de liberdade, mas gostamos. Estamos fazendo teatro há algum tempo, você está se descobrindo uma ótima atriz e está empolgada com a idéia.
Eu canto para você em seus aniversários, você não gosta, mas faço e todo mundo espera. Nunca te faço surpresas e você sempre finge desprezar meu romantismo. Você adora esse jogo.
Temos uma vida a dois nada reservada. Estamos sempre rodeados de amigos, passamos longos tempos distantes e odiamos nos falar por celulares. Eu faço cinema e dou aulas, por isso passamos muito tempo sem se ver. Dorme muita gente em casa e por isso eu adoro cozinhar coisas e deixar em irritantes potes na geladeira.
Não somos ciumentos, não nos cobramos, jamais usamos o afeto, a cumplicidade, ou destino para controlar um ao outro. Não deixamos ninguém por nome em nossa relação, não damos nome a nada, não somos exemplo pra ninguém, jamais pensamos no futuro, e somos absolutamente cúmplices, amigos, queridos e esporádicos amantes um do outro.
Nossa vida é boa, nutrimos uma expectativa de ação e ruptura social constante e isso nos mantém vivos...

Pode ter sido apenas um sonho, mas para mim foi real. Se você pegar este avião, eu vou sumir pra sempre. Por isso te peço... uma xícara de café. Depois você vai para onde quiser, mas não hoje, não esta noite. Eu nos escolho!...por favor...

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Auto-Sequestro

Estar refém em si mesmo não é a mesma coisa de estar ensimesmado. Somos reféns de si mesmos quando nossas vontades furtam nosso livre-arbítrio, nossas escolhas ficam emudecidas e nossas ações ridículas. Acontece na paixão, na raiva, nos coquetéis de insegurança, na depressão e às vezes no tédio. Também acontece na infância, na adolescência e no recalque destas duas construções burguesas, provocado pelo infantilizador consumismo das pessoas e das coisas.

Agora, crime hediondo é outra coisa. Crime hediondo é quando alguém usa seu sentimento pra te dominar, chantagear, possuir, impedir, convencer, enfim, quando a vulnerabilidade voluntária do amor e afeto tornam-se armas de controle e suplicio de nós mesmos. É como se a Síndrome de Estocolmo viesse antes do ato em si.

O problema é que nestes casos fatalmente o sequestrador já é refém de si prório. Por isso, não importa, em ambas situações ou somos autores ou cúmplices daquilo que acredito a mais perigosa crueldade de todos os nossos vícios sociais, tornamo-nos a personificação da opressão e da violência em nosso próprio auto-seqüestro.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Poesias minhas....

Nunca as publiquei pois que me revelam ainda mais que os textos. Mas hoje vai uma que achei perdida por aqui.....do fim de 1999....

Convite ao Suicídio

Dos homens que amor a ti veteram
São os que por ele tombaram.
Destes tombos, tantos são,
Quantos as mulheres que amaram.

E que disto tirem valiosa lição,
Não há vida sem tombo dado,
Viver da morte sem padecer
É dada vida sem ter amado.

Do desespero sou todo são,
Não do tombo a que fui levado,
E sim porque no teu olhar adorado,
Já tenho a certeza de que vou morrer.

Teu beijo me será o veneno
Qual teus olhos não rogam taça,
Mas é teu corpo a guilhotina,
Cujas mãos serão a faca,

O velho canto é a minha vaidade,
Meu tecido da rotina de esperança,
E será então desta lembrança,
Razão da vida a que digo não.

Eis que é simples meu motivo,
Outros hão de falecer,
E se deles foi meu vício,
Ouçam aquilo que vos digo,
Não há pior que este castigo,
Melhor que a dor, é não viver.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Certos vícios...

"O verdadeiro respeito científico para com uma obra (e seu autor) consiste na discussão e na avaliação rigorosas e não na repetição sem fim dos conceitos, tiques de linguagem, estilo de escrita, raciocínios preestabelecidos etc. É preciso saber acordar alguns usos adormecidos desses conceitos, é preciso ousar levantar certas questões, autorizar-se a contradizer, refutar, complementar, matizar o pensamento de um autor. Nem rejeição brutal, nem repetição de epígono, mas dívidas e críticas."

Bernard Lahire

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

O Passado de Babenco

Na verdade nem sei se é um grande filme, mas certamente O Passado é no mínimo bom. Achei o Gael meio apagado, sinto que não soube dar o tom ao homem frágil que interpretou. Resolvi escrever porque as obsessões amorosas que ele narra me chocaram. Começo dizendo que chocaram porque são reais, em maior ou menor grau, no presente ou no passado de todos nós.

Antes de tudo é preciso dizer que o pólo aglutinador de toda obsessão é o homem frágil, daqueles que se perdem diante de qualquer intempérie mais grave, dos que não sabem viver sozinhos. Entretanto não sei até que ponto, mesmo fortes, poderíamos impedir a obsessão do outro, presenciar obsessões parece ser inevitável. O que quero dizer é que a fragilidade de Rimini, para além de presenciar as obsessões, as vivenciava e as nutria de sua própria fraqueza.

Por isso não seria imaturo e generalista dizer que as obsessões que vivencio na vida se nutrem de minhas próprias fraquezas, creio que nisso este filme é arrasador.

Um aspecto não tão intimista e que na película chega a ser debochado são os retratos da obsessão e dos vínculos absurdos nascidos na relação a dois: a incapacidade e constrangimento de se lidar com a ruptura; os ciúmes (sombra da insegurança); a posse; a violência implacável das paixões; a imaturidade sexual; a dependência e carência afetiva como coisas distintas; o papel da família (forçando-se perpetuar dentro dos próprios modelos); a relação desigual entre os gêneros transcendendo fragilidades individuais. Enfim, são muitos os exemplos, e todos apresentados como formas de obsessões explícitas que acabam assustando o espectador.

E me perdoem se parecer repetitivo dizer-lhes, assustam quase sem suspense, assustam porque são aberrações de nossa própria experiência. O filme mostra que o passado pode ser um cadáver no armário, e talvez sem querer, dependendo de como o vivemos, o presente pode ser desta mesma natureza.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Sonho solitário e realidade coletiva

A imagem que nós projetamos de nós mesmos pode estar muito mais próxima daquilo que gostaríamos de ser do que daquilo que realmente somos. No decorrer da vida, porém, a manutenção desse simulacro não se mantém.

Uma vida de parecer ser é instável demais para qualquer projeto de médio e longo prazo. Em curto prazo tudo pode ser momento, existe até quem defenda isso, afinal uma vida de experiências em fragmento desobriga compromissos e escolhas mais sérias, permite fingir e não é preciso nem começo nem fim, entretanto ninguém é completo vivendo de cacos momentâneos por toda vida...

Essa imagem daquilo que gostaríamos de ser não é necessariamente algo planejado, tem muito mais a ver com o universo simbólico que vamos nos deparando ao longo da vida. Talvez seja uma tentativa de buscar algo além, um atalho para respostas que não existem, mas nada disso justifica o preço.

Seus pedaços de história desconexa vão se desprendendo de todo o resto, restando apenas memória de um frágil passado, angustia de perda presente e o medo do futuro no qual você vai ter que se encarar querendo ou não.

Nestas encruzilhadas tento não ter medo daquilo que parecia impossível de fazer sozinho, sem esta ou aquela pessoa. Talvez não saia tão prazeroso e bem feito como imaginava nas projeções cinematográficas de mim mesmo, mas sonhos desta natureza, dificilmente saem das projeções mesmo quando se realizam. Os que você consegue realizar de verdade, por sua total responsabilidade, só se realizarão nas possibilidades de sua própria realidade. Construa-a, ou vá até onde der.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Todo mundo quer colo!

No meu próprio tempo tudo está tão desmistificado, tabulado, catalogado, que não creio possível entregar-se a uma relação séria sem antes fazer os cálculos mais básicos. Por exemplo, um dos cálculos possíveis é ver se a pessoa é tão independente quanto você, em todos os sentidos. Se for mais independente que você, que o déficit seja pequeno e controlável o suficiente para que você jamais a atrapalhe ou a obrigue a dar meia volta, na própria vida, por amor. Financeira, social, familiar, intelectual e amorosamente falando. Se a desvantagem for do outro, nada de compromisso sem antes mensurar a anatomia das tais autonomias!

Mas daí penso...isso enrijece tudo, não....

Torna cada frase ou gesto, logo no inicio, tão artificial quanto um isopor. O poeta irá dizer-nos que é preciso saber demorar-se, poder gastar uma vida toda nisso e sem arrependimentos. E quem sabe melhor amar que os poetas...

Então dirão vocês que o poeta é carta fora do baralho! Não tem emprego, patrão ou sequer quer ter filhos.

Foi só com o tempo que percebi o que queriam dizer os letrados sobre a solidão inerente que todos nós vivemos. Só não me lembro quem disse que a experiência de saber aquilo que sentimos é algo tão intimo que somente nós conseguimos saber, lá por de trás dos próprios ossos do próprio corpo. Talvez isso permita sermos tão desconexos uns dos outros. O Dom Casmurro, lá em 1800 e batatinhas, já tinha uns poucos amigos de 15 anos ou menos. Disse ele que só restavam os recentes (e olha que era mil oitocentos e batatinhas!). Provavelmente, pessoas realmente interessantes não ficarão ao seu lado passando as tardes como se fossem adolescentes, principalmente depois de certo tempo.

Acho que por isso acabamos buscando o amor. Criamos uma célula com alguém que a gente acha que vale a pena. Mergulhamos em padrões e vícios de comunicação e convivência com uma única pessoa para que o resto de nossas vidas sociais vire puro lucro. A outra razão deve ser perpetuar-se em algo simples de fazer, bastante sofisticado para nós mortais, a família. Projetos coletivos de outras naturezas quaisquer também virarão lucro compulsório.

Desse jeito parece que relacionar-se amorosamente em termos tradicionais é puro comodismo cultural!!!

Bom, que se dane, está cada um indo pra um lado e todo mundo quer colo!

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Tropa de Elite, osso duro de roer!

O que Padilha (diretor de Ônibus 174) fez com Tropa de Elite ainda não havia sido feito no Brasil: cinema de aventura\policial para as massas (no molde e qualidade americana, digamos de um segundo escalão). Nestes quesitos o filme é realmente bacana.

Bellini e a Esfinge e Os Assassinos são exemplos brazucas que já propuseram aventura policial americanóide, mas passaram longe dessa referência seja por qualidade técnica, seja pela narrativa sem a cadência do “cinemão” gringo. Já Cidade de Deus não foi filme para as massas por outras razões. Sua linguagem MTV denúncia, seus cortes video-clipeticos, sua postura de revelação da verdade, sua tentativa frustrada de uma visão ética da barbárie e até sua superexposição contraditória de “personagens reais” que hoje são astros da indústria do cinema nacional, o colocam fora da rota de Tropa de Elite.

Entretanto o que Padilha fez foi só isso e ponto. Seu filme contém todo o estereotipo, todas as reduções e dualidades de qualquer filme deste tipo em outros países. Enaltece a tortura e a violência policial, dá soluções e apresenta causas questionáveis para conflitos sociais, levanta polêmicas rasteiras sobre preconceito, reforça elementos simbólicos que ocultam questões fundamentais na luta de classes.

Como bem definiu Kleyton Rogério na Ilustrada: " herda do cinemão americano o roteiro esquemático, o moralismo mistificador, o cinismo utilitário, a hipocrisia social, o pensamento monolítico. Banaliza e glamouriza a tortura. Acha justificável os fins da assepsia social e seus meios aéticos. É um filme desumano e autoritário”.

E afinal não é nesse moralismo mistificador que religiosos e o Edir Macedo deitam e rolam suas vidas e as dos demais:: Não é nesse cinismo utilitário que Maluf, ACM, o clube do uísque, os jovens que queimam índios, mãe da fila dupla na porta da escola e seu avô reacionário chafurdam:: Não é por esse pensamento monolítico que Datena, o Brito Junior e o Jornal Nacional são patrocinados pelas casas Bahia:: Não é a Hebe, os condomínios fechados, e a relação da empregada doméstica que vestem essa hipocrisia social:: Não são estes os que defendem “a limpeza étnica” da sociedade como um rabisco que se paga com borracha::

Tropa de Elite é um grande marco na cinematografia brasileira. Já é recorde de público e certamente deve gerar filhos pródigos. Para além de ser uma excelência da aculturação estética inevitável e desejável pelo público de cinema no Brasil, é a síntese de um fragmento do Brasil sob o olhar que a imprensa nacional e classe média metropolitana conseguem enxergar.

Pois então meu povo, aplaudam seu horroshow!!!

terça-feira, 25 de setembro de 2007

O quereres

Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
E te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és
...
O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há em mim


Caetano, instável, em momento de ápice!

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Ao grande Thiago...história como verdade tem prazo de validade.

Por certo que o passatempo de nossa personalidade arrogante, do currículo dos próprios feitos, são a rememória constante nos presentes de pretérito imperfeito. Mas é importante o destaque de seu texto, se o fazemos é por que deixar-nos evidente uma espécie de patente acreditamos de legitimo pretexto.
Permita-me porém de sua idéia, um momento. Ser arrogante tem trunfo mais pertinente que o passado, é senão o próprio reconhecimento. Já o passado, geralmente, é fruto de seu desejo em ser legitimado e não é a toa, quase sempre, que passado dos outros nos pareça alterado.
Dissipar o resultado de nosso próprio contexto, em detrimento a qualquer outro contexto é a única forma de permanecer no tempo. É aí que você tem a mais plena razão, apenas a humildade perscruta o infinito. Obrigado meu amigo, teu conselho ecoa em mim:

Ruinado está aquele que só age à própria história conservar!

Arroganteza (por Thiago)

Um dos traços mais característicos nas personalidades arrogantes é o lembrarem-se constantemente de tudo o quanto caminharam para chegar aonde estão. Estas personas sentem um sabor especial em relembrar os seus feitos, mesmo que não comentem nada aos outros (em casos particulares de inflação autônoma de ego).
Dou aqui o meu testemunho embasado em vários anos de arrogância prática: o trunfo dos arrogantes é o passado. E pensando assim arrogantemente não percebemos que entravamos a nossa continuidade, porque então qualquer passo à frente pode significar um esforço desnecessário, ou ainda um risco ao império (realista ou fantasioso) que se conquistou. (Escusado é dizer aqui que tudo o que se fixa pretendendo a eternidade se destina à ruína, porque o Universo não tolera estes desvios)Apenas a humildade perscruta o infinito.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Foucault e os Intelectuais

A morte dos intelectuais parece-me um estranho conceito. Intelectuais, nunca os encontrei. Encontrei pessoas que escrevem romances e pessoas que curam os doentes. Pessoas que estudam economia e pessoas que compõem música eletrônica. Encontrei pessoas que ensinam, pessoas que pintam e pessoas de quem não entendi se faziam alguma coisa. Mas nunca encontrei intelectuais.
Pelo contrário, encontrei muitas pessoas que falam do intelectual. E, por escutá-los tanto, construí para mim uma idéia de que tipo de animal se trata. Não é difícil, é o culpado. Culpado um pouco de tudo: de falar, de silenciar, de não fazer nada, de meter-se em tudo... Em suma, o intelectual é a matéria-prima a julgar, a condenar, a excluir...
Não penso que os intelectuais falem demais, porque para mim não existem. Mas penso que o discurso sobre os intelectuais esteja passando do limite e seja pouco encorajante.
Tenho uma feia mania. Quando as pessoas falam tanto por falar, quando fazem discursos que ficam no ar, procuro imaginar onde levariam as suas palavras se fossem transcritas na realidade. Quando "criticam" alguém, quando "denunciam" as suas idéias, quando "condenam" o que escreve, imagino-os numa situação ideal em que têm pleno poder sobre ele. Reproduzo as suas palavras no primeiro significado: "demolir", "abater", "reduzir ao silêncio", "sepultar". E vejo abrir-se a radiante cidade em que o intelectual certamente seria prisioneiro e enforcado, com maior razão se fosse um teórico. É verdade, não vivemos em uma região em que os intelectuais são mandados ao diabo; mas, na realidade, diga-me, por acaso ouviu falar de um certo Toni Negri? Por acaso não está na prisão exatamente enquanto intelectual?

http://brigadasinternacionais.blogspot.com/2007/09/toni-negri-amrica-latina-est-acabando.html

sábado, 8 de setembro de 2007

Marx, Delacroix, Lou Reed, Michel Jackson e Sucrilhos - tudo em um!










Amigo DM - São Paulo, Fevereiro, 1997

No saguão da USP chegou Eduardo, que só conseguia falar puxando a pele do próprio pescoço com a mão esquerda. Sincero, Dudu acenava na direção que lhe cabia a cuca e a bem da verdade sua excênticidade era esplêndida. Ainda é nítida a primeira vez que o vi, tinha uma capa preta costurada sob medida por sua mãe...aliás, linda capa preta!
Aquele ano de 97 nos rendeu boa safra de convivência, jogamos RPG, batemos longos papos de corredor e Robin Hood roubou minhas moedas de ouro já na primeira Taverna.
O desencontro não tardou, Dudu deixou o curso e sumiu, mas corriam boatos de suas amigas patrícias que era ele professor de piano, clandestino em Paris.

Anjo Ninja - Sevilha, Julho de 1999

A madrugada de terça-feira rendia-me a rendição. Subi naquele parapeito da ponte do rio que corta a cidade das dançarinas de flamenco na vontade de um salto mortal. Ventava no reflexo da lua cheia, alvo que mirava na água turva. Aquela desilusão amorosa transformara-me em um falsete do Werther, de Goethe. Mas no interlúdio de minha covardia, Dudu reapareceu só (em plena madrugada, numa ponte, no meio da semana, no interior da Espanha!!!).
Chamou-me pelo nome e perguntou o que estava fazendo em pé na beira daquele precipicio. No princípio foi inevitável pensar em Deus...aos poucos, já conformado, desci do parapeito atônito econversamos muito, Dudu levou-me a uma festa e depois eme ajudou a seguir pra Granada. Foi uma insólita noite nos paralelepípedos das touradas. E então, como que inveitável e ainda naquele dia, outro desencontro, outro hiato...

Idolo de Argila - Bragança Paulista, Março de 2004

O estábulo no meio da fazenda seria o palco para o show de um primo vocalista. A banda usa codinomes, canta línguas inventadas e toca com brinquedos. A influência vai de Lou Reed a Roberto Carlos. O bar-estábulo é de dificil localização, fica no meio do nada depois de 30 minutos de estrada de terra.
Sob o céu estrelado dos pastos, lá pela meia-noite, surgiu Dimas Turbo, um japonês de cbaelço na cintura usando vestido. Um Barry White franco-niponico, tecladista, e ninguém menos que Dudu Tsuda. Reconhecimento imediato do inexplicável, para cientistas, compreensível!

O anjo-pássaro-erótico-malaio, ninja maior do clã Mojica já não some ou aparece...Dudu agora é onipresença, memorial...um lobo nú, com pochete de couro e tamancos!

Tragam suas oferendas...

http://www.jumboelektro.com.br/jumboelektro/index.htm
http://www.trashpour4.com.br/

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

A estação da vida...

Quando nutrem por nós qualquer expectativa que sabemos de antemão impossível superar, vivemos um curto tempo deitando nos prazeres da cama desta falsa fama, ou as baixamos imediatamente, a fim de satisfazer as nossas próprias expectativas num pra sempre qualquer.
Cuidado com a própria vaidade!!!!
Perder alguém assim tem gosto de cabo de guarda-chuva que nunca mais sai da boca.

Tiros em Riviera

Eu vi o depoimento da mãe do tal Thales, o promotor que atirou numa galerinha na praia da Riveira paulista. Ainda fico meio chocado com o estado letárgico das pessoas, e o dessa mãe, diante dos absurdos que proferiu em defesa da prole, agrediram tanto quando sua imagem: voz baixa, arrogante, olhar blasé, medalhinha de nossa senhora, casaquinho de lã da cor do cabelo acinzentado. Liga das Senhoras católicas. Escrotíssima!
A mídia quer a condenação, não cansam de dizer que já afastado é um absurdo o indivíduo ainda receber o salário. O povo, por sua vez, adiciona mais um pote na prateleira da descrença. A maior parte do MP e dos juristas alega legitima defesa, e é aqui que mora o diabo. Thales diz que defendeu a própria honra e a da namorada quando mexeram com a garota. Mas o promotor deu seis tiros no peito de um dos jovens, no meio da tarde, numa praia e não foi a primeira vez, o cara tem outras passagens pela polícia.
Tudo errado, não! Vamos do começo: Um Estado existir, um promotor existir, um promotor ter fórum especial, um promotor andar armado, um cara com passagens por agressão estar armado, existirem armas de fogo em pleno século XXI, a noção tosca (e jurídica) de uma defesa legítima, todos terem idade de jovens, um grupo de boçais mexerem com mulheres acompanhadas em um país machista e paternal, a foto do cuzãzinho que morreu ficar super exposta, um povo querer justiça, um povo ficar descrente, condenações, a relação egoísta entre um homem e uma mulher, a defesa da honra, uma mulher que não se defende sozinha, alguém ainda acreditar em honra, uma mãe católica tradicionalíssima dar entrevistas, a mídia e seu factóide do salário, um salário de 10 paus num país como o Brasil, uma praia fechada, uma praia de gente rica, putz...não acaba mais!
Vamos vender jornais...
Hey dudes, carry the news!!!!

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Enjoy The Silence - Depeche Mode

Imagine o drama. O drama exposto, carne viva nestes tristes tempos. Os sonhos mágicos nos corações dos homens tantando, querendo resistir ao desencantamento deste mundo que já foi!
Quer saber...aprecie o silêncio do caos privado!!!

Palavras violentas
Quebram o silêncio
Chegam destruindo
Entram no meu mundinho
É doloroso para mim
Você não entende?
Ah, minha garotinha

Tudo o que eu sempre quis
Tudo o que eu sempre precisei
Está aqui em meus braços
Palavras são completamente desnecessárias
Causam sérios danos

Juras são feitas
Para serem quebradas
Sentimentos são intensos
Palavras são triviais
Prazeres permanecem
E trazem dor
Palavras são insignificantes
E dispensáveis

Tudo o que eu sempre quis
Tudo o que eu sempre precisei
Está aqui em meus braços
Palavras são completamente desnecessárias
Causam sérios danos
Aprecie o silêncio

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Viaduto

Meu amor, julgue antes vossas escolhas, pois por elas será julgada!
Não se anda em descaminho sem que caia madrugada!
E porque vives entre os homens, bebe-se e come de todos,
Não seria então a sua fome a fome de qualque outro?
Nossa violência é apenas um leito da casa do infinto humano
E ocupa o mesmo horizonte que qualquer amor que se propõe perfeito.

domingo, 26 de agosto de 2007

Ciência como vocação. Cinema como Vocação.

Fazia muito tempo que não lia o clássico “Ciência como Vocação”, texto do Weber, de 1917. Weber fez uma defesa da educação científica distante de convicções políticas (uma busca de neutralidade exterior). Por sua vez, o cientista-professor deveria mergulhar no trabalho árduo, aguardando o acaso de uma intuição que produzisse algo relevante ainda que não permanente. No furação do progresso há sempre a possibilidade de um novo progresso e imerso neste infinito não há sentido na morte, tampouco na vida. Ela sempre estará incompleta já que deveria continuar indefinidamente.
Mas Weber diz (não que isto seja central em seu texto) que arte também necessita desta mesma intuição. A diferença é que seu resultado tende a ser permanente. Arte não se associa ao mesmo sentido de progresso que a ciência. Cada um dos que contemplam uma obra de arte verdadeiramente acabada, distante de intenções empresariais, aprecia talvez diversamente sua significação, mas nunca pode dizer que ela foi ultrapassada por outra obra de arte.
Como eu venho pensando muito em Cinema foi inevitável a associação.
O que deve ter o cineasta por vocação?
Em primeiro lugar o cinema é uma forma de arte coletiva, o que já é completamente distinto do trabalho intelectual. A idéia de um único cineasta, o tal diretor, ainda que faça sentido à idéia de cinema autoral, não me parece justa, nem mesmo criteriosa para expressar o que realmente é a arte de fazer um filme.
Num segundo momento, o Cinema é uma arte que nasce na modernidade dominada pelo capital e pela racionalização. Portanto, o sentido de permanência da obra cinematográfica pode nos enganar, haja posto, por exemplo, que o marketing que forja alguns de nossos diretores únicos é o mesmo que vende sabão em pó.
Mas, com um pouco de estudo e análise da produção e discurso fílmico, acho difícil permanecer um “Velozes e Furiosos” ou um “Ghostbusters” para muito além de suas próprias gerações, enquanto um Hithcock ou um Almodóvar, transcendem seu tempo, como já vem acontecendo há algumas décadas.
Afinal, quais as características de um cinema vocacional?
Talvez este post ainda seja pequeno, e este autor igualmente, pra uma resposta de tamanho quilate, mas um começo não seria audacioso: imagino que qualquer filme que se proponha fruto desta intuição e de árduo trabalho, ou seja, qualquer filme que almeje a permanência da arte precisará, no mínimo, da presença de uma mesma “natureza de personalidade” que teve o prório Max Weber.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

A Defesa do Poeta - Natália Correia

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível
um lápis de armazenado espanto
e por fim com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código
o azul de todos (curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros
sois a cidade o vosso enfarte
serei não há cidade
sem o parque do sono que vos roubei

Senhores professores
que puseste a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças
que salvo do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos
que do baralho de em pó volverdes
sois os reis sou um poeta
jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém minha
cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?

Senhores juízes
que não molhais a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.

domingo, 19 de agosto de 2007

Projeto raiz, uma rosa shakespeareana....

Já faz algum tempo e é sobre o Projeto Raíz. Era a ata de uma reunião. Coloquei aqui pra contrastar com o escritório e gravata de todos nós. Tentem ler até o fim e reflitam sobre a própria vida:

A letra da Paulinha na lousa era inconfundível, letra delicada, tipo revista em quadrinhos. Destacava o backgroud das próximas três horas:

Consciência universitária
Autonomia de conhecimento
Conscientização política e social
Reforço e ensino de conceitos e fundamentos
Racionalização do saber adquirido
Auxilio na formação e alcance de metas educacionais individuais

Sentado naquela pequena carteira lia nossos objetivos e pensava na educação popular, nas iniciativas legadas da Escola Cidadã e em outras lutas. Então, logo abaixo estavam desenhados nossos princípios e era evidente que traziam fronteiras políticas mais demarcadas. Pensei então num buscar constante, dado o mundo, as contradições da modernidade dual, a complexidade e nossa imaturidade em tais conceitos. Estava certo que estes não se esgotariam ali, quais sejam:

Pedagogia Libertária e Critica
Autogestão
Democracia consensual
Busca por plena “horizontalização” – equidade
Um pouquinho de TAZ ; Temporary Autonomus Zone

Preciso insistir que a Pedagogia libertária e Crítica sempre estiveram presentes em nossa engajada postura. Assumi-las e estudá-las é deveras tardio e necessário a nossa própria história. Aqui neste link http://www.espacoacademico.com.br/042/42pc_critica.htm temos um ótimo texto da Universidade de Maringá a respeito.
A Autogestão é um dos obvieis instrumentos destas práticas pedagógicas e salvo alguns poucos momentos (onde regimes de exceção fizeram história diante de certas questões) este é um conceito onipresente no projeto. Estudá-lo é igualmente fundamental. Recomendo o conceito de Autogestão no Dicionário de Política de Norberto Bobbio.
Democracia Consensual é um conceito pouco conhecido por duas razões. Ele não serve ao modelo econômico vigente e, logo, entendemos por todos os modelos de democracia o modelo de democracia majoritária. Em http://www.republicart.net/disc/aeas/burnicki01_es.htm há um ótimo texto em espanhol sobre o assunto, mas busque mais por modelos democráticos e se informe mais sobre a própria vida.
A busca pela plena horizontalização reforça as três idéias anteriores e nos lembra em garantir equidade na pluralidade e em todas as relações político educativas de nosso projeto, principalmente na relação educador – educando.
TAZ também é mais um nome de nossa rosa shakespeareana, como diz Acácio. Somos um levante, somos como piratas. Não somos um lugar, não somos uma instituição, sequer somos um grupo fechado. Entre em http://www.rizoma.net/interna.php?id=199&secao=intervencao e saiba mais sobre as TAZ e o grupo rizoma.

Por fim o que ficou decidido como novidade pra 2007:

Mutirão de duvidas – um domingo por mês onde educandos, amigos e educadores se reúnem pra ajudar quem está com maior dificuldade.
Exercício Big Brother – monitores de matérias por sala, em cada sala, um ou dois alunos ficarão responsáveis por recolher as listas de exercícios semanais, divulgarem os gabaritos e cobrar os demais colegas.
Cada disciplina terá seus próprios monitores. Foco nas dissertativas.
Senha Redação - a realização de 28 temas dos principais vestibulares dos últimos 5 anos serão a senha semanal pra entrar no projeto todo sábado. Um grupo de corretores se responsabilizará pela correção e orientação das turmas.
Simulados Raiz – 4 ao longo do ano, todos com a matéria progressiva e acordo com o andamento do curso. Isso fora os simulados gerais tradicionais.
NAS Raiz – núcleo de ação social, com assembléias consensuais envolvendo toda a comunidade e os atores do projeto na formulação de ações, projetos e discussões de conceitos essencialmente transformadores.
Novo grupo gestor - Houve também a efetivação do atual grupo gestor. Miranda é o coordenador, Raquel é o financeiro, Roberto está em Projetos, Marisa e Fernanda estão no pedagógico, Paulinha na coordenação docente e Carlinha na secretaria geral. Fora os tradicionais e os novos colaboradores do Raiz. Só guerreiros, a galera que carrega o piano.

Ar....vamos, respirem!!!!

O Livro dos Amantes

I

Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.

Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.
Para que desses um nome
à exatidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à umidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.


De Natalia Correia, agorinha a minha portuguesa predileta. Aliás, sempre ao lado de Pessoa, Clarisse, Drummond, Rosa e Vinicius, meus melhores amigos em língua portuguesa. Também um forte abraço ao Quintana, a Manoel de Barros, a Lya Luft e ao bom e jovem Augusto dos Anjos. Desculpem-me Noel, Cazuza, Cartola, Bosco, Chico e Caetano, mas também passem lá, Tom Zé e Arnaldo Antunes estão sempre vindo cá me visitar.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Deixa eu gritar com o espelho: ao sudeste vão ver!

Há pouco mais de 2 anos muita gente ainda perguntava o que eu achava do Lula. Era meu universo de classe média, amigos de sobrados e apartamentos de dois a quatro quartos. Geralmente indecisos ou sofistas, tendiam a “nordestear” as próprias opiniões, colhendo argumentos para defender o governo quando lhes fosse conveniente em casa ou no bar, já que no trabalho todos eles atacariam o governo independente de qualquer coisa mesmo.
De lá pra cá, porém, esta posturinha alienada “sudesteou” de vez. Mergulhada no denuncismo sensacionalista e surrealista de Uol, Jornal Nacional, Estadão e Veja, esta turminha ficou agressiva e passou a manifestar um fascismo privado ao se falar do governo. Na época da reeleição cheguei a escrever como nós (a rídicula classe média esquerdista) estávamos sendo hostilizados em nossos círculos relacionais.

"Presidente analfabeto, bêbado, ladrão."; " Eles trairam seus valores"; "Não sabe de nada, não viu nada"; "O governo mais corrupto da história". São os temas mais comuns. E falam por si, aliás. Exemplo, o ser humano que acha que formação acadêmica é mínima garantia de bom senso e habilidade na governança, certamente é o mesmo que acha que é preciso estudar pra ser alguém na vida! Dá pra discutir com esse cara???? E a tal traição de valores então? Seria a classe média cobrando algum tipo de postura ética da esquerda brasileira? Não quero nem começar a falar!

Que fique claro que não sou lulista. Também não sou filiado ao PT, apesar de ser simpatizante de sua história. Mas que fique claro também que a desigualdade sócio-econômica no Brasil (que é ainda enorme e insustentável) nunca havia diminuído aos níveis da situação atual. Que fique claro que sempre acharam que o PT assumiria o poder e destruiria a economia que nunca foi tão estável como agora. Que fique claro que a política econômica do governo, aliás, é uma continuação óbvia daquilo que os Psdbistas praticaram nos oito anos de poder, que já era uma política obvia no processo de internacionalização econômica mundial.

Mesmo assim tudo e todo mundo pirou. Hoje andamos calados dinate desse pessoal que já pressupõe que qualquer primata com o telencéfalo altamente desenvolvido simplesmente odeia o governo Lula! Cada suposta crise deflagada, cada notícia de corrupção, passou a cristalizar a opinião desta classe social que, no incio do primeiro mandato, se alinhava mais ao povo do que à elite

Eu entendo que quem sofre com a crise aerea é a classe média que quer ir pra Trancoso, pro Rio, pra Miami. Sinto muito gente!!!!
Entendo de quem veio as vaias no Maracanã vieram de quem estava de férias em plena tarde lotando um estádio na abertura dos jogos Panamericanos. Foi mal, o povo não viu pq tava quebrando pedra no interior, tá!!!
Entendo que a passeata anti-lula combinada pela internet e juntou mil pessoas faz parte do tô casadinho (http://www.tocansadinho.blogspot.com/). Ahhh, que pena, 70 % do país não sabe ler!!!!

Entendo que a classe rica passou longe de qualquer crise e a classe pobre deste país melhorou substancialmente sua condição, logo, quem se espremeu foi a classe media, cheia de sonhos de consumo e uma vida corrida. Pô pessoalzinho, desce do salto e encara uma Casas Bahia vai?!

Mas vamos lá, não é esta mesma classe média que vibrou com o vôlei de praia e com o judô no Pan, que ama tanto nosso país, tão patriota e consciente da identidade nacional, que trocaria qualquer medalha de ouro por uma vida em qualquer país europeu na hora?

O Brasil é Zimbábue, é Haiti, é América Latina. Nossa governança é afetada pela fraqueza de nossas instituições e isto é histórico. O Brasil está enxarcado de miséria, má distribuição e latifúndios, mas em Congonhas e Cumbica não se vê nem na decolagem nem no pouso.

Nosso país não está na Veja, nem no Jornal Nacional e tão pouco poderia lá estar, o Brasil é grande e complexo demais pra caber antes ou depois do comercial do Blue Label ou do Space Fox.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Comentários...

Mário Quintana dizia que a modéstia é a vaidade escondida atrás da porta. Simplismente adoro esta frase!
Escondo então, junto da vassoura, minha vaidade. Nunca achei que alguém lê-se este cantinho virtual. Como eram raros os comentários e há vários posts não havia nenhum, eu me resignava, escrevo pra mim. Essa é a planilha de lampejos que tenho, nem todos, os que não dá preguiça ou estou preso demais e preciso mostrar.
Geralmente escrevo a tarde, no trabalho. Ou a noite, entre um comercial e outro de minha prórpia vida.
em resumo, sempre foi despretencioso e descuidado. Foi o desabafo do sociólogo que sabe que não dá conta de tudo.
Então descobri uma coisa, graças a Mari, minha amiga que mandou-me um inquietante scrap no Orkut. Descobri que os cometários estavam sendo por mim moderados graças a alguma configuração qualquer!

Quis morrer! De vergonha, por moderar o imoderável. De tristeza, por nunca responder e agradecer quem se importou em comentar. De medo, por me sentir vunerável, nú.

Um botãozinho de configuração e 60 comentários surgiram como um tesouro escondido!
Não sei se agradeço, se me desculpo, se me escondo...se tudo junto!

Beijos ....

Rocha, Amanda, Mari, Gu, Cintia, Katia, anônimos...vaidade!!!!!!! rsssss

Bjos
Ste

O problema não é o avião é o que fazem com o que fizeram com o avião!

A crueldade é constitutiva do universo, é o preço a pagar pela grande solidariedade da biosfera, é ineliminável da vida humana. Nascemos na crueldade do mundo e da vida, a que acrescentamos a crueldade do ser humano e a crueldade da sociedade humana. Os recém-nascidos nascem com gritos de dor. Os animais dotados de sistemas nervosos sofrem, talvez os vegetais também, mas foram os humanos que adquiriram as maiores aptidões para o sofrimento ao adquirirem as maiores aptidões para a fruição. A crueldade do mundo é sentida mais vivamente e mais violentamente pelas criaturas de carne, alma e espírito, que podem sofrer ao mesmo tempo com o sofrimento carnal, com o sofrimento da alma e com o sofrimento do espírito, e que, pelo espírito, podem conceber a crueldade do mundo e horrorizar-se com ela.
O egoísmo, o desprezo, a indiferença, a desatenção agravam por todo o lado e sem tréguas a crueldade do mundo humano. E no subsolo das sociedades civilizadas torturam-se animais para o matadouro ou a experimentação. Por saturação, o excesso de crueldade alimenta a indiferença e a desatenção, e de resto ninguém poderia suportar a vida se não conservasse em si um calo de indiferença.
Edgar Morin, in 'Os Meus Demónios'

Cruel. Adj. 2 g. Que se compraz em fazer mal, em atormentar ou prejudicar. Duro, insensível, desumano. (Do latim crudelis ou crudele.)

Blog egoísta é assim, um pouco mais sobre mim...

O Orkut perguntou, quem eu sou? Como Orkut é o que e não quem, respondo-lhe:
Sou a insuportável vaidade relacional que me consome e que me faz um irracional conquistador de pessoas. Apesar da impetuosidade, jamais serei inescrupuloso ou facínora. Só o humanismo já seria o suficiente para riscar toda indiferença de minha estante, mas trago muitos outros contrapesos morais. Capaz de me exasperar, mas também de me comover às lágrimas. Contudo, nunca, nunca ajo impelido pelo egoísmo ou por interesses menores, embora meu combustível esteja na paixão e na emoção. Almejo o puro dialogismo e encampo o coletivismo e altruísmo engajado em abruptos e dispostos debates. Meu individualismo são pequeninos fragmentos que cortam minha derme e se anunciam como sangue sobre alva pele.
Sou dúctil e risonho e aqui reside meu maior desfalque real: quando muito incomodado, mascaro este impávido bem estar então aparente, perderá-me mas permanecerei perigosamente ausente e terás apenas gregas e suaves expressões de brandura. Não obstante, sou intransigente na defesa de meus princípios ideológicos, logo, implacável juiz de vossas escolhas. Como disse, no empate me revelo prontamente graças à busca pela limpidez de atitudes, na vitória regojizo e resigno-me em seguida, declino pois gosto mais do empate. Na derrota abstenho-me covardemente. E em todos os casos renego a lógica competitiva.
Vivo a simbiose do homem teórico justaposto a sensibilidade e sensitividade. Assolo-me na praça de alimentação do mundo, mas deixo claro minha decomposição. Contudo, para mal ou para bem, se anulo meu homem político, que é notadamente partidário e eletivo, não declino a nenhum imperativo biológico nem superestrutura. Permaneço desperto e purifico minha práxis. Os polemistas revolucionários, como eu, são qualitativos e não se submetem facilmente aos números e convenções!

sábado, 14 de julho de 2007

Mais moda da solidão

A solidão que bate na porta chega de muitas maneiras. Gosta de vestir incompreensão, mas também brinca com outros tecidos mais leves. Outro dia, por exemplo, ela apareceu de esquecimento. Na verdade soava como ausência de consideração, mas isto é senão uma tipologia do esquecer. Nunca parecera tão vistosa e medonha.
Veio pelas mãos de uma antiga amizade, na verdade de um amor. Até ali não tão velho, ao menos assim parecia.
Acontece que solidão é uma antítese da cumplicidade e cumplicidade é um vínculo direto com o outro, vínculo que criamos por diversas razões, principalmente nos amores. A figura da irmandade cúmplice é uma das mais bonitas formas no amor. Meu dilema é que neste caso a solidão tinha feito nossa tal cumplicidade de adorno.
Acho que foi uma espécie de falta de manutenção minha da minha parte. Mas a ausência de uma sólida memória de dia-a-dia por anos a fio, confesso, foi um duro golpe daquela mulher na minha crença de futuro.
Primeiro senti uma espécie de arrependimento pela dedicação, lê-se também esforço, dissipado. Relações egoístas geralmente decantam mágoas.
Depois veio um leve desespero pelas experiências que poderia ter tido no lugar daquele papel. Conjectura infeliz da minha parte, a bem da verdade, mas essa sede de viver bem me obriga a pensar assim.
Aos poucos a indignação e a tristeza brutalizaram aquele cantinho que antes parecia tão bem cuidado, aquela rosa de pequeno príncipe. Engraçado como a gente vira pedra mais rápido do que imagina. Vomitei a maldade e crueldade daquilo tudo e morri por mais três anos naquele dia.
Por fim, entendi que onde há uma vontade insólita de tornar sempre presente um perfeito passado, naturalmente lá, existe uma parte morta, um guarda-roupa inteiro de solidão e mofo.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Mundo do trabalho, sempre ele...

às dores do meu amigo...

Olha a frieza do consumo daquilo que há de humano nos humanos!
Que cruel condição transformá-lo em máquina!
Que “desvalor” daquilo que nos difere neste mundo!

Desidentificar para identificar cargos e crachás. Deixar que o quem dar vasto lugar ao quanto. Se conformar com o que resta de humano nos subterfúgios cotidianos do trabalho. No happy hour, no almoço, na troca de alguma coisa que nos seja pessoal.

Colega é humano transformado em máquina. Uma lacuna entre amizade e uma inexistência qualquer. Colega é bom pra conviver e bom pra executar, mas não tem memória, nem história. É humano imediato. Amigo recurso, recurso amigo.

E assistimos assim o amontoar de homens em pirâmides.
Eis a sétima e ultima maravilha do mundo.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

A Festa

Uma festa do Grand Monde esteve em mim mais do que eu nela. Bobagem dizer-lhes que lá estava a trabalho? Pois digo isto mergulhado no misto de vergonha e desconfiança de minha práxis.

O lugar era grande e escuro como a metropóle. Como nela, a salvação parecia vir de luzes coloridas e efeitos de spotlight. O som caótico das vozes escondia-se no barulho branco da sinfonia de passos e taças.
Pessoas impessoais vagavam no tecido da maioria. Velhos homens acompanhados por primas de luxo, na verdade, acompanhado-as provocavam tormento à memória de qualquer sintoma moralistico. A raspa da raspa de gente do universo das revistas marrons gravitacionando a luz e curiosidade de todos. Um verdadeiro buraco negro às avessas.
Olhos, olhos e mais olhos, por sinal, nenhum olhar. Finos copos carregando pessoas finas. Garçons invisíveis, bandejas voadoras. Seguranças negros, brasileiros e miseráveis disfarçados de guarda real inglesa. Sim senhor, valet na porta dos carros senhores. Exércitos.
O cara importante menos pra si mesmo cruzava os braços e inclinava-se de lado para fazer seu comentário minutico e lacunar, de lado inclinava-se ao desnecessário.
Homens e mulheres solitários com bocas desesperadamente fechadas invejavam os sorrisos de canto das bocas acompanhadas. Corpos dourados, cabelos dourados, mundo dourado. Mundo blasé. Mundo carente. Cães sem dono. Extasiado por fora e apático por dentro.

O show do Who made Who foi bom, aliás, muito bom, pena que ninguém viu, nem eles!

terça-feira, 3 de julho de 2007

Sobra da dobra de nós...

A saudade, obviamente, é um tipo de falta. Funciona como qualquer outra falta, mas veste idealização. E o inusitado na saudade é o tamanho da idealização. Ele determina a intensidade deixando que nossa prória falta determine o tamanho da saudade.
É como se dissemos para a ausência: deixa que eu deixo...

sábado, 16 de junho de 2007

O caos estável dos mares de alienção pelos quais navego....

Segunda, terça, quarta, quinta....os dias rolam sobre o caos estável. Talvez sempre tivesse sido assim. Em todos os tempos do mundo. As ilhas de consciência são regra.
É claro que falo da metodologia. Mas também do bom senso e da sensibilidade, seja lá o que a subjetividade destas noções significarem. Então as ilhas estão, seja no cinema, naquele café da esquina, na estante, no meio das entrelinhas dos livros da estante. As ilhas estão nom momentos passados e nos que virão, nas ações coletivas de grandes humanos. Estão em alguns teatros, e na dúvida: onde está Antônio Cândido agora:::

Já disse outro dia aqui o quanto me debruço em minha própria falta de lucidez. Mas diariamente também tenho minhas ilhas de consciência, e sei onde elas me levam. É por isso que alguns camaradinhas ainda me respeitam, oh yeah!

Quando não sei como explicar sistematicamente o que está errado, e sei que algo está errado, sinto que é só questão de esforço chegar perto de alguma conclusão palatável a ilha mais próxima. E não tenho preguiça disso não, nunca tive, aliás. O que falta, nestes casos aonde não se chega à conclusão alguma, é capacidade de realizar vontade na hora do insight!

Sim, porque vendo meu tempo e me vendo. Como todos aqueles que trabalham...e sim...porque o suicídio do real é algo que você desenvolve ainda quando criança.

Razoavelmente incompleto, mas muito bem.

domingo, 3 de junho de 2007

Levante-me

Meio sem querer sempre vivi levantes. Foi na imperfeição da superfície de minhas idéias lacunares, ou talvez minha pretensão de estar na ponta da lança de nosso tempo. E assim, quase sem querer, sempre vivi levantes.
Minhas experiências acadêmicas foram levantes. Minhas idéiassão levantes. Meu amor é um levante. Não uso aliança, não sou registrado, minha relação familiar é rasa, meus amigos são independentes, meu carro não está no nome e não tenho nenhuma propriedade. Em resumo, minha vida privada é um levante.
Meus projetos e trabalhos são levantes, são curtos e intensos e quando longos, não se estruturam em nada! Sou, portanto, um pirata.Não tenho bandeira de país, não sou nem brasileiro, nem belga, nem italiano.
Meu passado, salvo raras exceções, é como é toda lembrança, um levante. Nem mesmo eu deixo de ser um levante. Trafego pelas esferas sociais sem medo, sem pudor, passo por estrangeiro de todas elas. O mesmo faço comigo, minhas roupas, meu humor, meu sorriso são levantes, como se fosse eu estrangeiro de mim.
A única coisa que tomo é a força da luta humanista que me movimenta. Nesse enorme tecido que é o humanismo caminho institucionalizado, eu por inteiro.

domingo, 27 de maio de 2007

Com quem e sobre o que você está falando:::

Quem são os analfabetos de meu país. Quem é essa maioria aparentemente invisível aos olhos de meus pares, meus 4 milhões de colegas diplomados.

Quem são os pobres e miseráveis de meu país. Quem é essa maioria invisível aqui da minha janela, que não come e é fisicamente explorada em nosso cotidiano privado, cotidiano de meus poucos e bem aventurados 15 milhões de colegas com ganhos acima de 2 mil reais por mês.

Quem são os alienados de meu país. Quem é essa maioria absoluta que não enxerga a pobreza e a riqueza, sua má distribuição e sequer o lado que assume diante deste quadro político-social.

E quem são os cínicos de meu país, cegos ao tráfico da maconha, balas sntéticas nas raves e ao pó em que se entorpecem nas festinhas de apartamento e baladas caras, cegos ao passeio sobre a miséria em seus ridículos carros, status e símbolos de consumo, cegos as conseqüências do imposto que sonegam, cegos aos importos que pagam, as conseqüências de sua ética individualista, cegos a permissividade das colas das provas, das tiranias cotidianas em casa, das vantagens sobre os outros ao longo da vida.

Não há possibilidade de debatermos a política com analfabetos de um lado e cínicos do outro. Assim, os resultados eleitorais serão, sempre, resultados dos estímulos diretos causados pelas políticas publicas e devaneios dos jornalistas mal formados. E assim será com todos os assuntos, de religião à invasões da reitoria!

domingo, 20 de maio de 2007

Imperfeita Lembrança

Algumas vezes por dia penso em meus amigos. Não todos, tanto os dias quanto amigos. Mas se contarmos o mês chego a pensar na maior parte. Em um ano, certamente, penso em todos por algumas vezes. Que bobagem, não! Não importa o quando, nem quantas vezes, é na qualidade de minha lembrança que mora a importância.
É que tudo começa de repente. Geralmente num momento de descuido a lembrança começa num flash, um gesto de segundos que me provoca um incondicional sorriso no canto da boca. Em seguida, tento sentir a parte da minha alma que pertence àquela pessoa. É tal pedacinho por ela lapidado e não é raro que pra isso leve eu alguns minutos, seja porque perdi o pedaço, seja porque ele é grande demais.
Nesta fase as lembranças tendem a aumentar, mas apenas tendem! São lembranças rasas do cheiro e das sensações daquele tempo em que tive ao lado do amigo, ainda que o tenha visto há alguns minutos atrás. Sigo a lembrar do porque não o vejo mais e me preparo para entrar no terceiro estágio.
O terceiro estágio é o das perguntas. A vontade de saber como está, vontade de saber se lembra de mim, por fim se essa pessoa precisou de minha ajuda num fim de tarde qualquer e se vai me perdoar e contar o que perdi por lá não ter estado.
Neste instante todo meu desejo é canalizado na vontade de ligar, entrar em contato. Ligar ali, de qualquer jeito, mesmo que tarde ou cedo demais pra ligar. Ligar pra marcar, pra ver, pra perguntar. Tudo isso nutrido da esperança de reinicio de uma convivência diária, semanal que seja, convivência de série de TV, convivência natural, convivência que já nasce se sabendo impossível e mesmo assim guardando a esperança do quase.
E tudo termina de repente, em alguns segundos não tenho mais o telefone, nunca o tive, perdi o papel, o farol abre, não sei onde está o celular, alguém chega, alguém chama, caio no sono, volto a prestar atenção em quem me fala, bate o sinal, abro a geladeira, termina o comercial, toca a música que gosto no rádio, piscam as linhas do livro, e deixo pra um mais tarde infinito, me dá preguiça depressiva, fecho o chuveiro, o google me trás resultados demais. Tudo acaba num instante, e volta pro lugar de onde veio pra retornar dali dois ou três dias, dois, três meses.
Há quem diga que isso é nostalgia, há quem diga que é a dura pós-modernidade, digo eu que tudo isso me parece uma imperfeita pessoa tendo lampejos de sua imperfeita saudade.

domingo, 13 de maio de 2007

Desarticulação estrutural

Senso comum dizer que movimentos humanistas e de esquerda são desarticulados entre si e a meu ver a razão é simples: a esquerda se preocupa demais em apontar as próprias contradições. Devemos lembrar que ser de esquerda é antes de tudo ter senso crítico principalmente em relação às injustiças da luta de classes.

Logo, tendo a crer que a falta de critério é o que possibilitou a direita passar despercebida de seus conflitos idiossincráticos. É um absurdo um maçom se dizer cristão ao mesmo tempo, ou que ensinamentos budistas possam ser funcionalizados ao mundo executivo, ou ainda que “O segredo” (vigarice da pior qualidade) seja a razão de 2% deterem 90% da riqueza do mundo. Entretanto nenhuma destas contradições, mesmo reveladas, impede uma fusão, um negócio, uma festa, um networking para o futuro de nossas elites econômicas.

A contradição que na esquerda torna-se a razão de um imobilismo pleno, na direita subverte-se no nada. Pior, se ignorar as próprias contradições a esquerda corre fácil risco de se subverter naquilo que ela combate, dado que no limite é a práxis que regurgita o sistema vigente.

O mundo pragmático não pensa seus fundamentos, os incorpora deixando a esquizofrenia no plano do inconsciente.

Não proponho o mesmo modelo pra nós. Deixa a direita se esbaldar na contradição! Apenas identifico que enquanto a burguesia vai se alimento do cheiro de seus ralos, teatrinho do MST na Zona leste pra mim depende de quem faz, projeto de educação comunitária na Zona Sul pra eles também depende....e tudo isso parece pequeno demais pra chamar tão seriamente de desarticulação estrutural.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Seguindo o post anterior

Fui a um casamento lindo neste sábado. Muito bacana. Apesar de estar um pouco distante dos noivos, meu amor por eles é o mesmo daquele primeiro momento em que os amei. Vi tanta gente querida, vários amigos que não via há muito tempo. E o último post se fez valer!
Lá não estava, porém, um amigo antigo, que infelizmente tinha outro compromisso. Deu uma agoniazinha faceira. Lembrei que anos atrás, sentado na beira da praia eu apertei a mão dele e disse:
- Foi um prazer ter te conhecido nesta vida!
Aquele tom de despedida não o agradou em nada, afinal éramos unha e carne havia mais de década. Então ponderou, usou panos quentes, não depositou fé na minha fala, mas mesmo assim caminhamos um ao lado do outro aquela que seria nossa ultima caminhada pela praia juntos.
Com pesar e sabedoria, entendi naquele pôr-do-sol que não conseguiríamos seguir juntos. Escrevendo aqui, lembro-me de um ou outro caso parecido, mas que a imaturidade forçou rupturas abruptas e dramáticas. Coisa que você leitor também já deve ter vivido.
Não importa nosso desejo, nem mesmo aquilo que sentimos. Diante de tempos que trazem tantas facetas a uma mesma vida devemos aceitar que mudamos tanto ou mais que nossas próprias circunstâncias, logo, afinidades vem e vão. A vida não respeita nem mesmo nossas preferências. As pessoas que ficam ao nosso lado não são necessariamente aquelas nas quais apostaríamos a 10 anos atrás.
Passar da metade da vida nos trás a inevitável certeza de que amigos nos escolhem e são escolhidos meio que ao acaso e é esse mesmo acaso que os mantém longe ou perto da gente.
Talvez a gente se conforme em saber que nos encontraremos vez ou outra com a sensação de termos nos visto ontem. Ou ainda, fiquemos com a esperança de que aqueles amigos voltarão ao nosso convívio diário em breve.
Mas não, dificilmente voltarão, e não, não nos vimos ontem. Aliás, estes que estão ai pertinho agora correm um grande risco de serem substituídos por outros ou até mesmo ninguém.
Faz tempo que dizem que é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. No lindo casamento de sábado parei pra pensar que, principalmente na metrópole, na verdade não há!

domingo, 8 de abril de 2007

Como vai você:::

Muita gente me pergunta, depois de lapsos temporais, o que todo mundo pergunta pra quem não vê faz tempo: como vai você:::
Ao contrário do que fazemos no dia-a-dia com os conhecidos, nestes casos a pergunta é de verdade, a pessoa realmente quer saber o que está acontecendo na sua vida.
E é foda como na minha isso têm tomado ar constrangedor há anos. Nos últimos 5 anos sempre estive envolvido em projetos diferentes, empregos diferentes, diferentes empresas. Fiquei inquieto. Tornei-me inquieto. Mutante.
Médico sem fronteiras, sim tentei, sim gostaria. Cineasta e produtor, sim sou, sim serei. Professor, sim sempre fui, sempre o sou, não escapo, não desejo escapar. Astrônomo, sou, e me falta o telescópio. Cientista, sim quase fui, sim posso vir a ser. Na banda toquei, mas o violão corre de mim. Advogado, sim tentei, sim me frustrei, não, não desisti. Namorei, namoro, casarei, moro com meus pais, não moro mais. Viajei, vi o mundo, gostei e não gostei. Como o Alan Molinas, meu irmão e amigo, trabalho e trabalhei.
Realmente não fui convencional e não escolhi sê-lo ou não. E realmente, raramente me arrependo. Nada disso fiz pra mim. Queria salvar o mundo, sem perguntar se o mundo queria ser salvo, sem imaginar que não conseguiria salva-lo. Aliás, ainda o salvo, todo dia, sem sabê-lo. Picareta, talvez, há quem diga e porque não:: sou, sim, talvez.
Por isso a única coisa intacta nos últimos cinco anos são meus valores e ideais e, talvez o Bowie e o Vinicius de Morais, mas isto nunca ninguém quer saber de verdade como estão. Inda mais os meus!
A mim e aos que me acompanham de perto minhas escolhas soam como um roteiro, com um mínimo de sentido e estilo. Como eu, roteiro confuso, arbitrário, mas absolutamente intenso e gerando expectativa constante no espectador. Pelo menos a mim, minha própria vida sempre chama atenção.
Mas ainda assim me constranjo diante dos amigos de convivência lacunar, a eles, quando encontro-os, sempre penso parecer eu a lacuna do tempo que de novo irá nos separar.
Por isso respondo, como vai você: Não sei!

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007

Circo os Horrores Moderno

O Big Brother é meu assunto da vez, outra vez. Principalmente porque há muito mais do que uma vitrine narcísica do lado de lá da tela. Principalmente porque há muito mais do que telespectadores inocentes espiando do lado de cá da tela.
Pra começar vale dizer, mais uma vez, que Big Brother é uma referência a figura criada por Orwell no livro 1984. Símbolo dos controles autoritários da modernidade, o Grande Irmão vigiava todos os cidadãos através de uma televisão, punindo e formatando os comportamentos da sociedade. Outro aspecto interessante é que o Grande Irmão não era necessariamente uma pessoa. Sua figura era a de um rosto apenas, ele era o ícone para uma teia burocrática que determinava os comportamentos e pensamentos dos outros.
Portanto, de cara, o único Big Brother do programa da TV é o próprio Pedro Bial, um único rosto representando um aparato de controle de dezenas de pessoas. Chamar os participantes de brothers e até sisters não passa de marketing, bobagem, ignorância ou tudo isso junto. Outra semelhança com o livro está nas provas, vt´s, comentários do apresentador, votações, festas, comida, disposição dos aposentos, roupas, espelhos, câmeras, enfim, tudo, são ferramentas declaradas para a criação e manipulação dos conflitos de poder na casa. Já que o telespectador torça pra não solução dos conflitos é outra questão.
O behaviorismo rasteiro e mal intencionado, a exposição e ridicularizarão de seres humanos, a voluntariedade questionável (envolta claramente a necessidades e fetiches sociais), a banalização das relações pessoais e de poder são alguns dos óbvios problemas do programa.
Mas a questão fatal diz respeito ao que eles denominam de “jogo”. O fato de haver uma votação entre os telespectadores para que um participante receba dinheiro ao final do programa, por si só, nem de longe pode ser considerado jogo. Já quando os participantes votam uns nos outros para uma possível eliminação da experiência existem jogos de poder explícitos, mas não há um jogo com regras claras e competição isonômica entre os habitantes da casa. Dizer que o programa é um jogo não passa de subterfúgio. As diferenças que surgem entre aquelas pessoas, os conflitos em geral, as manipulações e preconceitos tornam-se meras brincadeiras. As permissividades antiéticas que cada um comete contra si e contra os demais, lá, são estratégias de jogo. Votar e ser votado não tem razão aparente senão a de que é um jogo, ditos pelos participantes, um jogo de afinidades. Ora, isso não existe! Não há jogo senão de poder, onde os resultados da casa são reflexos diretos das manipulações feitas pelos mantenedores do programa sobre as pessoas que dele participam. Os participantes não competem, não há regras, não há competição, a única coisa mensurável são votos do público (perfeitamente manipuláveis, sem nenhum critério ou auditoria). Reitero, dizer que é um jogo é desviar a consciência de quem participa e de quem assiste do que realmente ocorre, não passa de marketing para atrair a atenção e alienar os participantes das manipulações que os mesmos sofrem. Não é um jogo e sim a exposição dos resultados de experiências psicológicas sádicas com a mera intenção de lucro através de entretenimento. É o circo dos horrores moderno, onde mulher barbada é fichinha.
Como a experiência é voluntária nada se pode fazer. Mas o questionamento da autonomia dos que buscam o programa, seja por dinheiro ou status, jamais se descolará da atração, tão pouco a crueldade explicita e o desrespeito com as pessoas, em pleno veículo de comunicação de massa e amparado pela lei. Além disso, há décadas existem exemplos igualmente sádicos e absurdos na televisão. O Big Brother é apenas uma “otimização” do caos lucrativo, moderno e ao vivo. Fique de olho!