Eu usei botas ortopédicas, daquelas do Forrest Gump, até os 5 anos. Mesmo assim, tenho as pernas tortas do Garrincha e a coordenação motora do Inspetor Clouseu.
Apesar disso, praticar atividades físicas é importante. Importante porque temos um corpo que infelizmente ainda não dominamos. São juntas, músculos, ossos e outros tecidos flexíveis, além de todo aparato sensorial prontinho pra ser treinado, esticado, posto a prova. Certas atividades, como o Muai Thai, devem ser aprendidas num templo budista siamês, outras no parque do Ibirapuera com seu Carolo, boxe old school, isso se ele lhe aceitar como aluno e você aceitar os horários e socos do sr. Miagui do boxe. Yoga, tênis tudo é possível e segundo as revistas de RH, necessário!
Mas quando lembro de atividade física lembro da Educação Física do ginásio. Lembro de todos nós correndo atrás da bola, das brigas, dos professores canastrões. Lembro do time dos fortes e do time dos fracos, o qual eu era um assíduo participante. Lembro que na Educação Física genética e sucrilhos tornavam-se pivô das diferenças sociais do recreio por toda a vida escolar. Hoje, porém, eu entendo. O importante é competir.
Toda vez que alguém fala de esporte na TV é dizendo como a tal atividade lhe ensinou a nunca desistir, a ser perseverante na busca dos objetivos, a lutar sempre, a ser um vencedor. Nada mais obvio na sociedade winner\loser do século XX. E as justificativas não faltam: os gregos praticavam (certamente não com nossas intenções), a sua saúde depende disso (diz a ditadura da ciência a serviço da estética), a formação completa (clamam as teorias educacionais do mercado). Isso sem entrar no mérito do culto ao corpo.
Nem preciso dizer que toda essa baboseira me atirou direto para fora do planeta suor, até o dia em que fui convidado pra jogar bola por um de meus melhores amigos. Estava movido pela Copa, imbuído do espírito de que aquilo faria bem pra nossa convivência e até com a idéia de que poderia ser saudável. Enganei-me redondamente.
De cara achei que importante não era participar, era competir e eu não fui treinado pra competir. Nem no vestibular, nem no mundo do trabalho, nem na quadra nas segundas-feiras. Sou, talvez, aquilo que os competidores chamem de loser, o estereotipo do perdedor.
Mas na quarta vez percebi que novamente estava enganado, o importante passava longe de competir. Bastou 10 minutos como centro-avante pra que a bola batesse duas vezes na minha mão e o outro time gritasse aos berros: pênalti, expulsão, o que é isso!!!!
Nunca gostei dos juízes. O apito é a repressão do esporte. O braço armado desta instituição. E o pior é que o certo e o errado, mesmo por aqui, passa pelo homem e seus interesses.
Cansei e fui embora, saí sob protestos dos “amigos” que pediam pra que eu ficasse e dos “inimigos” que exigiam o tal pênalti. Antes de entrar no carro sentei por alguns minutos na frente da piscina do lugar e refleti sobre tudo aquilo.
Pode até ser exagero, mas lembrei das guerras do século XX, das disputas por mulheres, dos crimes nos bares, das puxadas de tapete nas empresas. De toda dor e alegria que a competição provoca nas pessoas que conheço.
Será que isso é uma experiência humana insuperável...será possível existir uma convivência transformadora, criativa, produtora sem competição...
Certamente não voltarei ao futebol tão cedo, mas foi importante participar de um mês de segundas-feiras suadas pra descobrir mais uma verdade sobre meus contemporâneos: para os homens do século XX o importante nunca foi competir, participar então, nem se fala. O importante nesse mundo de fortes e fracos é vencer e de preferência apitando!
“Se você correu, correu, correu e não chegou a lugar nenhum, bem vindo, bem vindo ao século XXI”
Raul Seixas
terça-feira, 29 de agosto de 2006
“O importante é competir” finalmente deixou o lugar comum!
terça-feira, 15 de agosto de 2006
Click
Sábado à noite estávamos todos acabados e resolvemos ir ao cinema. Voto vencido, me dirigia ao filme Click como um boi caminha ao matadouro. Aliás, literalmente, uma vez que no Cinemark existem baias de espera. Adam Sandler estrela o filme e isso já é motivo suficiente para não o assistir. O tema é um plágio tolo do clichê onde um homem assolado pelo sistema encontra um anjo que lhe dá a graça de enxergar aquilo que realmente importa dentro da ótica cristã e capitalista, evidente.
São duas as coisas que fazem deste filme algo passível de um post. A primeira é a idéia de um controle remoto que transforma a vida em um dvd. Você assiste bastidores da sua própria vida, controla o volume, pausa, pula e acelera capítulos. Se for para trás você só assiste o que já aconteceu, se for para frente você vive no automático, passivo, e depois sofre as conseqüências de sua passividade. Metáfora no mínimo polêmica e criativa. A segunda coisa é que tirando o final estúpido, o filme possui um ritmo de forte comédia na primeira metade e certa angústia na segunda. Estes ritmos marcados nos pegam de surpresa também. Tirando isso é mais um lixo de prateleira, que dada a mediocridade deste gênero americanizado, não causa arrependimento assistir.
Meu amigo fez 30
Quando eu fiz 30 anos acordei diferente. Obvio, são quatro décadas, um monte de teorias psicológicas e a simbologia de metade da vida. Mais simbólico ainda foi o fato de que mudei totalmente minha vida neste ano. Mudei de carreira, de emprego e de atividade sem planejamento algum. Puxei o freio de mão da década passada.
Sexta o Guinther fez 30 anos também. Escreveu um texto bacana, falando do que significava estar com trinta anos. Mas foi na festa dele que entendi melhor esta questão.
Os cabeludos já não o eram há tempos, os pais se inturmaram facilmente entre os convidados, os atletas estão obesos, alguns carecas. Os grupos discutiam aventuras, mas invariavelmente acabavam falando do mercado de trabalho. E o mais importante, a profusão de prazer coletivo me soava uma respiração boca a boca após um afogamento.
Atento, porém a algo ainda mais simbólico. O lugar era um lounge com luz bem fraca, quase apagada. Um tipo de pessoal descolado entre alguns yuppies de nosso tempo. As pessoas se espremiam no corredor para pegar a bebida ou até mesmo enxergar o outro. Em meio a tudo isso, havia uma garçonete, menina de tudo, com duas tranças curtas e uma cara de Betty Boop, que assim se apresentou:
- Meu nome é Maria, mas podem me chamar de Mari.
Aquela menina saia constantemente de trás do balcão e enfrentava uma verdadeira multidão de apertos e obstáculos, colocava a mão no ombro de seus clientes e perguntava:
-Está tudo bem, vocês estão gostando.
Mari descreveu o cardápio para mim e mais três pessoas item por item, com explicações delicadas e honestas sobre cada prato, tudo porque estava escuro e cheio demais para lermos, segundo ela, o menu.
A cada toque que via Mari dar nos ombros dos clientes sentia mais e mais o quanto ela era invisível naquele ambiente. Tudo que ela queria era dar aquilo que todos estavam dizendo que precisavam, mas ninguém percebeu que era ela, naquela noite, o símbolo da serenidade e da paz que sentíamos um ao lado do outro. Ela era o símbolo da tal respiração boca a boca.
Ao sair, enfrentei a multidão, esbarrões, pagamento de comandas e a Maria. Disse que ela era a pessoa mais doce que já havia me atendido em um bar em toda a vida. Mari, atrás do balcão, começou a chorar. A Betty Boop também tinha 30 anos.