terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Nem eu, nem Josephine...

As férias estão acabando e os compromissos vão puxando cada qual para seu lado, uns mais, outros menos. Muitos nem tiveram férias de verdade, mas é como se tivessem. Férias acaba sendo tudo aquilo que vai do dia 20 dezembro até a quarta-feira de carnaval.
Este tempo de preguiça, de leitura, de caça a passeios de tardes do sábado em plena terça-feira, é também tempo de letargia, de leniencia, tempo lento e possivelmente forte.
Não é simples impedir o tédio, mas acreditem, nem de longe esse é meu caso. Estou tão cansado pela energia consumida e dissipada por mim nestas férias, que meu corpo dói como numa gripe. Foram intempéries de quase todos os tipos, tão sortidas quanto os momentos de felicidade. Só agora a intensidade das coisas vai entrando em fade out. Mas isso aqui não é para ser balanço das férias, nem diário adolescente, em verdade pensei num depoimento.
Não sou daquele tipo de ser humano que se conforma com momentos ou se conforta com lembranças, tão pouco minhas memórias ficam em potes de conserva, juntos das salsichinhas e pepinos. E que massa os amiguinhos e memórias em conserva!Enlouqueceria eu se vivesse num pote com outros leguminhos, omo a maioria das pessoas que conheço!
Pela intensidade, minha vela, esta sim, “queima dos dois lados”. Aliás esta frase recorrente eu aprendi no “Nós que Aqui Estamos”, quando a diva “black thunder” Josephine Baker é posta ao lado do poema de Edna Millay pelo boboca do Marzagão. Apesar da expressão inglesa indicar a bissexualidade desde o séc. XVIII, para mim é representativa da forma de como tento viver a vida. Tudo aqui é tão intenso e importante que dou a mão para o mundo como se ele me conhecesse há séculos.
Mas é só agora, no fim das férias, e “porque depois isso muda”, qe fico órfão do tempo e acumulo o abandono de nossa condição finita, onde tudo que faz o ser humano em conserva parece ter prazo de valdade, um começo, meio e fim. Não bate, entende, sou o Travolta do primeiro filme, sozinho, no meio da pista perguntando: cadê todo mundo?
Sejam ciclos e processos, vos nego com toda veemência que pode meu peito! Sinto muito, sou de um tempo só, e todos os demais séculos anteriores são acumulados e vividos em profusão gigantesca em meu presente. Sou ser sem tempo. Nasci na época errada porque não há certa. Celtas, Comuna de Paris, romances vitorianos, Guerra-Fria, os gregos, Ulisses e as Sereias da Odisséia, um café com Fernando Pessoa, o filme que vi ontem, todas as minhas aulas e aulas dos outros, a TV, a trilha sonora de minha vida, e tudo ao mesmo tempo, estão em minha cabeça de uma vez só.
No agora que venha toda a humanidade, quero toda sua história. O meu acordo com o mundo não durará muito e só posso dar em troca o brilho de minha vela, que como a de Josephine, é um brilho rápido e intenso. Pessoas como nós precisam queimar a vida de uma vez só, num fogo muito, muito forte!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Bem no Fundo

Por Paulo Leminsk

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

A partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

Extinto por lei todo o remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

Mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Picaretagem master. Manual de auto-ajuda das paixões

Paixões efetivas são fantásticas viagens sobre a química dos corpos. São casos onde o corpo comunga uma fonte de um prazer especial, mútuo e raro, onde timming e intensidade, pele e sincronicidade são fatores fundamentais. Os apaixonados sentem felicidade indescritível na simples companhia um do outro. Porém, gradientes e instáveis, paixões se dissipam, condensam, estabilizam. Paixões alternam-se entre fortes e fracas, estimuladas ou não, e é claro, paixões acabam abruptamente.
As paixões dão seu primeiro sinal no estômago, como um arrepio interno até o meio do cérebro. A partir de então se alimentam de coisas nem um pouco nutritivas. Carência, hedonismo, fascínio e vaidade são as coisas que a paixão mais gosta de comer. É coisa util de saber que as paixões ainda bebês, nas primeiras semanas de gestação, quando não sao alimentadas morrem rápido e sem deixar vestígios. Basta que nenhuma das partes dê a elas os ingredientes supracitados.
Entretanto, se por vacilo ou azar a paixão nascer, crescer e não se efetivar, incondicionalmente voce estará com uma doença incubada. E não há remédio, nem acalanto para a dor que isso causará ao teu espírito. A patologia atingirá todo seu sistema nervoso e te descompensará por completo. Tornar-se-á uma dolorosa síndrome de abstinência e uma poderosa fonte de rejeição. Ataca rapidamente a imunidade de sua estima e seu comportamento fica irreconhecível. Não raro os sintomas incluem infantilidade, vômitos, choro agudo, dor constante na região do tórax, confusão mental, chatices, dentre outros.
Seu sofrimento pode ser acalantado em confissões e debates (por falsa diminuição da abstinência) e certamente você ira recorrer a estes placebos. São paliativos nada eficazes. Seu problema agora é químico. A desconstrução da imagem do outro, apesar de cruel, ajuda, mas não resolve nem como anestésico porque não se trata de algo racional. A auto vitimizacão é desleal e inconteste, jamais recorra a ela.
O tempo e a reação da doença irá variar de acordo com a intensidade da paixão, o quanto foi ou é estimulada, seu estado mental e, é claro, sua auto-estima.
Dois tratamentos radicais podem ser aplicados para diminuir o tempo de incubação:

a) Jail: onde há isolamento total da pessoa por quem se está apaixonado (tratamento cada vez mais difícil dado o avanço dos meios de comunicação);
b) Dogstyle: chegar ao fundo do poço da rejeição (mais radical, significa a destruição completa de qualquer possibilidade de outros tipos de relação futura).

Muita gente chega a combinar os dois, mas se você tiver um pouquinho de bom senso, isto certamente será um exagero. A responsabilidade nestes casos tem que ser total do apaixonado. Nenhum dos dois tratamentos é aconselhável para casos brandos ou médios.
Os artistas em geral usam a paixão como fonte de inspiracão, apesar de existirem nas artes correntes que abominam esse método. Muitas pessoas cometem suicídio ou homicídio durante o processo, e obviamente estes são casos agravados por descompensações concomitantes, aliás ainda bem que estas paixões não se efetivaram. Se bem que no caso do homicídio o morto não deve pensar bem assim.
Por fim, a melhor solução é sermos maduros e sabermos quando e por quem podemos nos apaixonar. Pesquisas duvidosas, de cientistas duvidosos, usando métodos duvidosos mostram que existem algumas pessoas por quem a paixão deve ser evitada:

1) Se houver outras pessoas apaixonadas por ela, ou muitos casos recentes (isto é um péssimo sinal, o mercado está inflacionado. É muita areia para seu caminhãozinho, ou tem alguma coisa errada com essa pessoa)
2) Com capital cultural muito diferente do seu
3) Comprometidas (mesmo que a relação esteja no fim, isso não é problema seu e vai atrapalhar)
4) Que tenha projetos de vida distintos
5) Com diferentes valores morais e estéticos
6) Com muitos anos de diferença (isso é relativo, é claro)
7) Inexperientes (a menos que você também seja)
8) Com muita diferença socioeconômica
9) Vaidosas demais (a não ser que você seja também muito vaidoso)

Agora atenção: paixões arrebatadoras (pelas pessoas mais erradas, com maior intensidade) levam anos e jamais são superadas pr completo, é doença até o fim da vda. Portanto muito cuidado e boa sorte!
Ah, lembre-se, qualquer relação amorosa a dois é como frescobol, e não como tênis: os dois tem que se empenhar, a bolinha tem que ficar no ar, e jamais se tratará de competir, de vencer ou perder, pra acontecer o negócio tem que fluir...frescobol!
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1 Intensidade da paixão irá variar de acordo com fascínio exercido pelo outro, a idealização, ao estímulo dado, e a relação de resistência e produção destas substâncias químicas em seu corpo.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A insustentável leveza no ser

Eu não sei como o compendio suave de nossa existência pode estar atrelado a grosseira condição de nosso corpo. Nós, que nos pensamos seres feitos de idéias somos, na verdade, um fato incontestável e frágil como um galho. Talvez seja também fato as idéias das quais pensamos ser feitos, ou ainda o galho também seja uma idéia. Pouco importa. O que importa é a leveza dos movimentos não se curvarem ao vento, mas aos músculos. As concepções políticas estarem em células, e nossos sentimentos condicionados ao tempo que durar nosso sanguíneo fluxo .

sábado, 5 de janeiro de 2008

O aspirador de nuvens

Estávamos no alto de um morro de mais ou menos uns cem metros. O topo era uma enorme circunferência plana e a encosta era um precipício de pedras e gramíneas que terminava no atlântico calmo e infronteiriço. Da varanda que beirava o precipício à direita se viam pedras e mar; na esquerda o contorno iluminado da orla em sua infinita perspectiva. A trinta e cinco graus, uma lua crescente e amarelada criava um rastro de luz sobre o oceano, e para alguns metros do deck, apesar da rave reverberar sobre a gigantesca pedra, ainda sem esforço era possível ouvir o barulho do encontro lítico-oceânico lá embaixo. Boa referencia de memória, afinal a cidade se chama Pedra que Canta, só que em tupi.
Em viradas estou sempre eu estrangeiro de qualquer lugar em qualquer canto, o único viés de minha presença é a companhia que me cerca. Neste 2007 tive a de meu primo Marcelo. Apaixonado pelo mar, no surf Marcelo selou sua relação com a vida. Talvez o que melhor lhe expresse ele disse ainda ali, olhando comigo para o rastro de lua: “creio ter uma ótima memória porque as coisas ruins eu literalmente esqueço”. Sua vida lhe reservou uma sinceridade pura, rara e positiva.
Ao seu lado estava Bia, psicóloga junguiana de Porto Alegre. Foi ela que iniciou a conversa dizendo que amava Bourdieu (sincronicidade, habitus e distinção, nada de mágico em meu reino, me recuso a acreditar); em tempo devo dizer também de Silvia, uma moça natural e simpática, de gestos e idéias bastante tradicionais; e Carol, uma engenheira elétrica espontânea e inteligente, agradabilissima pessoa de sorriso e mente aberta.
Ficamos ali, entre a música eletrônica e a poesia da imagem por horas. Pouquíssimas vezes levantamos para dançar. Entre vento terral, femenologia, piadas e gestalt, as conversas se desenrolavam, iam e voltavam, e a passagem do ano foi passando de propósito porque queríamos ver o sol nascer naquela varanda de diálogos.
Foi logo na alvorada que algumas poucas nuvens de horizonte ameaçavam a possibilidade da estrela. Apesar de não nos importarmos muito com isso, Bia começou a descrever, de forma fascinante, como seria se tivesse trazido seu aspirador de nuvens. A máquina em si não era muito grande e segundo a proprietária sua potência só garantia a aspiração das formações esfumaçadas e densas, não representando perigo as demais atividades celestes. Não usava energia e pelo que entendi servia tanto para nasceres quanto pores de sol. A idéia e concepção eram de um realismo fantástico sui generis.
O sol então surgiu, laranja como no fim de tarde dos fiordes de Munch. Dançamos mais um pouco sobre a luz do dia e dada a catarse da festa e a saudade da Gi que me consumia, o ano se iniciava como deveria: uma rave num precipício; papos cabeça até a luz do dia; um surfista e um sociólogo num belíssimo café de padaria.

Felice capo di ano a tutti!