Bernard Lahire
terça-feira, 30 de outubro de 2007
Certos vícios...
Bernard Lahire
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
O Passado de Babenco
Na verdade nem sei se é um grande filme, mas certamente O Passado é no mínimo bom. Achei o Gael meio apagado, sinto que não soube dar o tom ao homem frágil que interpretou. Resolvi escrever porque as obsessões amorosas que ele narra me chocaram. Começo dizendo que chocaram porque são reais, em maior ou menor grau, no presente ou no passado de todos nós.
Antes de tudo é preciso dizer que o pólo aglutinador de toda obsessão é o homem frágil, daqueles que se perdem diante de qualquer intempérie mais grave, dos que não sabem viver sozinhos. Entretanto não sei até que ponto, mesmo fortes, poderíamos impedir a obsessão do outro, presenciar obsessões parece ser inevitável. O que quero dizer é que a fragilidade de Rimini, para além de presenciar as obsessões, as vivenciava e as nutria de sua própria fraqueza.
Por isso não seria imaturo e generalista dizer que as obsessões que vivencio na vida se nutrem de minhas próprias fraquezas, creio que nisso este filme é arrasador.
Um aspecto não tão intimista e que na película chega a ser debochado são os retratos da obsessão e dos vínculos absurdos nascidos na relação a dois: a incapacidade e constrangimento de se lidar com a ruptura; os ciúmes (sombra da insegurança); a posse; a violência implacável das paixões; a imaturidade sexual; a dependência e carência afetiva como coisas distintas; o papel da família (forçando-se perpetuar dentro dos próprios modelos); a relação desigual entre os gêneros transcendendo fragilidades individuais. Enfim, são muitos os exemplos, e todos apresentados como formas de obsessões explícitas que acabam assustando o espectador.
E me perdoem se parecer repetitivo dizer-lhes, assustam quase sem suspense, assustam porque são aberrações de nossa própria experiência. O filme mostra que o passado pode ser um cadáver no armário, e talvez sem querer, dependendo de como o vivemos, o presente pode ser desta mesma natureza.
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Sonho solitário e realidade coletiva
A imagem que nós projetamos de nós mesmos pode estar muito mais próxima daquilo que gostaríamos de ser do que daquilo que realmente somos. No decorrer da vida, porém, a manutenção desse simulacro não se mantém.
Uma vida de parecer ser é instável demais para qualquer projeto de médio e longo prazo. Em curto prazo tudo pode ser momento, existe até quem defenda isso, afinal uma vida de experiências em fragmento desobriga compromissos e escolhas mais sérias, permite fingir e não é preciso nem começo nem fim, entretanto ninguém é completo vivendo de cacos momentâneos por toda vida...
Essa imagem daquilo que gostaríamos de ser não é necessariamente algo planejado, tem muito mais a ver com o universo simbólico que vamos nos deparando ao longo da vida. Talvez seja uma tentativa de buscar algo além, um atalho para respostas que não existem, mas nada disso justifica o preço.
Seus pedaços de história desconexa vão se desprendendo de todo o resto, restando apenas memória de um frágil passado, angustia de perda presente e o medo do futuro no qual você vai ter que se encarar querendo ou não.
Nestas encruzilhadas tento não ter medo daquilo que parecia impossível de fazer sozinho, sem esta ou aquela pessoa. Talvez não saia tão prazeroso e bem feito como imaginava nas projeções cinematográficas de mim mesmo, mas sonhos desta natureza, dificilmente saem das projeções mesmo quando se realizam. Os que você consegue realizar de verdade, por sua total responsabilidade, só se realizarão nas possibilidades de sua própria realidade. Construa-a, ou vá até onde der.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Todo mundo quer colo!
No meu próprio tempo tudo está tão desmistificado, tabulado, catalogado, que não creio possível entregar-se a uma relação séria sem antes fazer os cálculos mais básicos. Por exemplo, um dos cálculos possíveis é ver se a pessoa é tão independente quanto você, em todos os sentidos. Se for mais independente que você, que o déficit seja pequeno e controlável o suficiente para que você jamais a atrapalhe ou a obrigue a dar meia volta, na própria vida, por amor. Financeira, social, familiar, intelectual e amorosamente falando. Se a desvantagem for do outro, nada de compromisso sem antes mensurar a anatomia das tais autonomias!
Mas daí penso...isso enrijece tudo, não....
Torna cada frase ou gesto, logo no inicio, tão artificial quanto um isopor. O poeta irá dizer-nos que é preciso saber demorar-se, poder gastar uma vida toda nisso e sem arrependimentos. E quem sabe melhor amar que os poetas...
Então dirão vocês que o poeta é carta fora do baralho! Não tem emprego, patrão ou sequer quer ter filhos.
Foi só com o tempo que percebi o que queriam dizer os letrados sobre a solidão inerente que todos nós vivemos. Só não me lembro quem disse que a experiência de saber aquilo que sentimos é algo tão intimo que somente nós conseguimos saber, lá por de trás dos próprios ossos do próprio corpo. Talvez isso permita sermos tão desconexos uns dos outros. O Dom Casmurro, lá em 1800 e batatinhas, já tinha uns poucos amigos de 15 anos ou menos. Disse ele que só restavam os recentes (e olha que era mil oitocentos e batatinhas!). Provavelmente, pessoas realmente interessantes não ficarão ao seu lado passando as tardes como se fossem adolescentes, principalmente depois de certo tempo.
Acho que por isso acabamos buscando o amor. Criamos uma célula com alguém que a gente acha que vale a pena. Mergulhamos em padrões e vícios de comunicação e convivência com uma única pessoa para que o resto de nossas vidas sociais vire puro lucro. A outra razão deve ser perpetuar-se em algo simples de fazer, bastante sofisticado para nós mortais, a família. Projetos coletivos de outras naturezas quaisquer também virarão lucro compulsório.
Desse jeito parece que relacionar-se amorosamente em termos tradicionais é puro comodismo cultural!!!
Bom, que se dane, está cada um indo pra um lado e todo mundo quer colo!