O Big Brother é meu assunto da vez, outra vez. Principalmente porque há muito mais do que uma vitrine narcísica do lado de lá da tela. Principalmente porque há muito mais do que telespectadores inocentes espiando do lado de cá da tela.
Pra começar vale dizer, mais uma vez, que Big Brother é uma referência a figura criada por Orwell no livro 1984. Símbolo dos controles autoritários da modernidade, o Grande Irmão vigiava todos os cidadãos através de uma televisão, punindo e formatando os comportamentos da sociedade. Outro aspecto interessante é que o Grande Irmão não era necessariamente uma pessoa. Sua figura era a de um rosto apenas, ele era o ícone para uma teia burocrática que determinava os comportamentos e pensamentos dos outros.
Portanto, de cara, o único Big Brother do programa da TV é o próprio Pedro Bial, um único rosto representando um aparato de controle de dezenas de pessoas. Chamar os participantes de brothers e até sisters não passa de marketing, bobagem, ignorância ou tudo isso junto. Outra semelhança com o livro está nas provas, vt´s, comentários do apresentador, votações, festas, comida, disposição dos aposentos, roupas, espelhos, câmeras, enfim, tudo, são ferramentas declaradas para a criação e manipulação dos conflitos de poder na casa. Já que o telespectador torça pra não solução dos conflitos é outra questão.
O behaviorismo rasteiro e mal intencionado, a exposição e ridicularizarão de seres humanos, a voluntariedade questionável (envolta claramente a necessidades e fetiches sociais), a banalização das relações pessoais e de poder são alguns dos óbvios problemas do programa.
Mas a questão fatal diz respeito ao que eles denominam de “jogo”. O fato de haver uma votação entre os telespectadores para que um participante receba dinheiro ao final do programa, por si só, nem de longe pode ser considerado jogo. Já quando os participantes votam uns nos outros para uma possível eliminação da experiência existem jogos de poder explícitos, mas não há um jogo com regras claras e competição isonômica entre os habitantes da casa. Dizer que o programa é um jogo não passa de subterfúgio. As diferenças que surgem entre aquelas pessoas, os conflitos em geral, as manipulações e preconceitos tornam-se meras brincadeiras. As permissividades antiéticas que cada um comete contra si e contra os demais, lá, são estratégias de jogo. Votar e ser votado não tem razão aparente senão a de que é um jogo, ditos pelos participantes, um jogo de afinidades. Ora, isso não existe! Não há jogo senão de poder, onde os resultados da casa são reflexos diretos das manipulações feitas pelos mantenedores do programa sobre as pessoas que dele participam. Os participantes não competem, não há regras, não há competição, a única coisa mensurável são votos do público (perfeitamente manipuláveis, sem nenhum critério ou auditoria). Reitero, dizer que é um jogo é desviar a consciência de quem participa e de quem assiste do que realmente ocorre, não passa de marketing para atrair a atenção e alienar os participantes das manipulações que os mesmos sofrem. Não é um jogo e sim a exposição dos resultados de experiências psicológicas sádicas com a mera intenção de lucro através de entretenimento. É o circo dos horrores moderno, onde mulher barbada é fichinha.
Como a experiência é voluntária nada se pode fazer. Mas o questionamento da autonomia dos que buscam o programa, seja por dinheiro ou status, jamais se descolará da atração, tão pouco a crueldade explicita e o desrespeito com as pessoas, em pleno veículo de comunicação de massa e amparado pela lei. Além disso, há décadas existem exemplos igualmente sádicos e absurdos na televisão. O Big Brother é apenas uma “otimização” do caos lucrativo, moderno e ao vivo. Fique de olho!
segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007
Circo os Horrores Moderno
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