A solidão que bate na porta chega de muitas maneiras. Gosta de vestir incompreensão, mas também brinca com outros tecidos mais leves. Outro dia, por exemplo, ela apareceu de esquecimento. Na verdade soava como ausência de consideração, mas isto é senão uma tipologia do esquecer. Nunca parecera tão vistosa e medonha.
Veio pelas mãos de uma antiga amizade, na verdade de um amor. Até ali não tão velho, ao menos assim parecia.
Acontece que solidão é uma antítese da cumplicidade e cumplicidade é um vínculo direto com o outro, vínculo que criamos por diversas razões, principalmente nos amores. A figura da irmandade cúmplice é uma das mais bonitas formas no amor. Meu dilema é que neste caso a solidão tinha feito nossa tal cumplicidade de adorno.
Acho que foi uma espécie de falta de manutenção minha da minha parte. Mas a ausência de uma sólida memória de dia-a-dia por anos a fio, confesso, foi um duro golpe daquela mulher na minha crença de futuro.
Primeiro senti uma espécie de arrependimento pela dedicação, lê-se também esforço, dissipado. Relações egoístas geralmente decantam mágoas.
Depois veio um leve desespero pelas experiências que poderia ter tido no lugar daquele papel. Conjectura infeliz da minha parte, a bem da verdade, mas essa sede de viver bem me obriga a pensar assim.
Aos poucos a indignação e a tristeza brutalizaram aquele cantinho que antes parecia tão bem cuidado, aquela rosa de pequeno príncipe. Engraçado como a gente vira pedra mais rápido do que imagina. Vomitei a maldade e crueldade daquilo tudo e morri por mais três anos naquele dia.
Por fim, entendi que onde há uma vontade insólita de tornar sempre presente um perfeito passado, naturalmente lá, existe uma parte morta, um guarda-roupa inteiro de solidão e mofo.
sábado, 14 de julho de 2007
Mais moda da solidão
sexta-feira, 13 de julho de 2007
Mundo do trabalho, sempre ele...
às dores do meu amigo...
Olha a frieza do consumo daquilo que há de humano nos humanos!
Que cruel condição transformá-lo em máquina!
Que “desvalor” daquilo que nos difere neste mundo!
Desidentificar para identificar cargos e crachás. Deixar que o quem dar vasto lugar ao quanto. Se conformar com o que resta de humano nos subterfúgios cotidianos do trabalho. No happy hour, no almoço, na troca de alguma coisa que nos seja pessoal.
Colega é humano transformado em máquina. Uma lacuna entre amizade e uma inexistência qualquer. Colega é bom pra conviver e bom pra executar, mas não tem memória, nem história. É humano imediato. Amigo recurso, recurso amigo.
E assistimos assim o amontoar de homens em pirâmides.
Eis a sétima e ultima maravilha do mundo.
sexta-feira, 6 de julho de 2007
A Festa
Uma festa do Grand Monde esteve em mim mais do que eu nela. Bobagem dizer-lhes que lá estava a trabalho? Pois digo isto mergulhado no misto de vergonha e desconfiança de minha práxis.
O lugar era grande e escuro como a metropóle. Como nela, a salvação parecia vir de luzes coloridas e efeitos de spotlight. O som caótico das vozes escondia-se no barulho branco da sinfonia de passos e taças.
Pessoas impessoais vagavam no tecido da maioria. Velhos homens acompanhados por primas de luxo, na verdade, acompanhado-as provocavam tormento à memória de qualquer sintoma moralistico. A raspa da raspa de gente do universo das revistas marrons gravitacionando a luz e curiosidade de todos. Um verdadeiro buraco negro às avessas.
Olhos, olhos e mais olhos, por sinal, nenhum olhar. Finos copos carregando pessoas finas. Garçons invisíveis, bandejas voadoras. Seguranças negros, brasileiros e miseráveis disfarçados de guarda real inglesa. Sim senhor, valet na porta dos carros senhores. Exércitos.
O cara importante menos pra si mesmo cruzava os braços e inclinava-se de lado para fazer seu comentário minutico e lacunar, de lado inclinava-se ao desnecessário.
Homens e mulheres solitários com bocas desesperadamente fechadas invejavam os sorrisos de canto das bocas acompanhadas. Corpos dourados, cabelos dourados, mundo dourado. Mundo blasé. Mundo carente. Cães sem dono. Extasiado por fora e apático por dentro.
O show do Who made Who foi bom, aliás, muito bom, pena que ninguém viu, nem eles!
terça-feira, 3 de julho de 2007
Sobra da dobra de nós...
A saudade, obviamente, é um tipo de falta. Funciona como qualquer outra falta, mas veste idealização. E o inusitado na saudade é o tamanho da idealização. Ele determina a intensidade deixando que nossa prória falta determine o tamanho da saudade.
É como se dissemos para a ausência: deixa que eu deixo...