segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Kassab e Paes, aparentemente tanto faz

Democracia é coisa fascinante e imprescindível no mundo moderno. Isonômica e igualitária, complexa, consensual, e no discurso padrão o espaço do confronto, blá, blá, blá, blá, blá! Mas é foda aceitar isso no Brasil. Talvez nossa esquerda sempre tivesse sido insignificante mesmo. Não tivesse força para impor uma educação “desalienante” e uma cultura política consciente depois da ditadura. Ta lá na Constituição. Kassab, ou mesmo Lula lá conseguem interpretar o art.5°?! Noções abrangentes de liberdade, igualdade e direitos. Leis difusas, pouco incisivas, num país de analfabetos funcionais e políticos. Nosso país é arcaico INFORMALMENTE, reconheçamos!
Incerta, a imprescindível orientação para uma educação que politize a “cultura política” do país simplesmente inexiste. O Brasil é um país onde não é preciso (nem se deve) tomar partido. Não é de bom tom. Ninguém toma partido de nada. O Serra não apóia nem o Alkimin, nem o Kassab. O Maluf e a Soninha não apóiam ninguém. O Lula apóia a Marta mais isso não influencia o eleitor, segundo os comentaristas. A política, afinal, não orienta a decisão das pessoas. Daí que se perpetua geração após geração uma imparcialidade utópica, ridícula, cômica. Aqui a imparcialidade é uma religião, é possível defender ricos e pobres ao mesmo tempo sendo absolutamente sincero. Um fenômeno! É preciso parecer de centro para ser levado a sério. Tudo é só questão de administração. Simples assim. Bom senso. Administração para o desenvolvimento. Não é a toa que gente adora um engenheiro. Engenheiros são imparciais, pois tudo é questão de matemática e bom senso. A política não orienta decisões na engenharia.
Daí Partido Político é apenas alegoria. Daí o voto é personalista. Daí ser político no Brasil é solução individual, quase como prestar um concurso. Pergunto, se executivo e legislativo fossem concursados, por quatro anos, o que mudaria? Talvez fosse até melhor. Inventaríamos um novo tipo de estado democrático, mais tecnocrático e eficiente! A “engenheirocracia”.
Nunca mais precisaríamos ler sobre política no jornal, viveríamos, enfim, no êxtase da imparcialidade. Aliás, ler para que?! Tirando os comentaristas que “não refletem a opinião daquele veículo de comunicação”, aqui só dá jornalista robô, a notícia a qualquer custo, a “informação de todos os lados”, imparcial, precisa, o tempo todo. Quer coisa mais imparcial que comentarista político?! ( Ecccaaa!). Até nossos documentários, nosso Joaõzinho filho-de-banqueiro Moreira Salles roga a pecha de imparcial. Até o diretorzinho do Tropa de Elite disse que seu filme era imparcial.
Por isso pessoal, no Rio tanto faz Gabeira ou Paes. A zona sul curte MPB e tava cansada de evangélico corrupto, sinto muito, a elite do Rio não é de esquerda!!! Em São Paulo não ouvimos muita MPB e governar é fazer estradas desde o inicio do século passado. Erundina e Marta foram fenômenos isolados no tempo, e, diga-se de passagem, nunca ganharam em zonas eleitorais onde moram engenheiros. Aqui, é simples assim. Um bando de filhas da puta conservadores absolutamente inimputáveis!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

O escafandrista

Outro dia um amigo ligou-me para dizer que se separou. O fato era importantíssimo porque a relação o consumia por completo. Fiquei feliz por eles, mas foi a segunda noticia que realmente me inspirou: ele havia mudado de emprego. Explico. Esse sujeito leva um estilo de vida empirista. Através de um método particular ele experimenta as circunstâncias que vão lhe sendo oferecidas e, etnografando os espaços, realiza-se. Ok, você vai dizer, todos nós, de certa maneira, fazemos o mesmo. Concordo, mas poucos se deixam levar pelo experimento como ele, primeiro porque é arriscado, segundo porque é absolutamente anti-capitalistico.
Não raro, ele acaba caindo em ciladas imobilizantes, em espaços alienígenas, em contramãos de ruas sem saída. Trabalhou de mecânico, vendedor, professor, nunca tirou carta por razões políticas, já foi preso, já parou no manicômio, teve filhos, voltou pra casa dos pais, tentou suicídio, tocou com o Djvan, dirigiu grupo teatral, montou uma cooperativa, foi para aeronáutica, é filho de paraguaios, fez sociologia, virou evangélico, consultou cartomantes, e, por fim era gerente de banco concursado. Hoje é coordenador cultural, está solteiro e, agora, aparentemente feliz.
Não importa que amanhã se mude. Sua sensibilidade, e claro, certa resilhência diante de tanta intempérie, são invejáveis. No mais ele não muda em essência e continua sendo o mesmo bom amigo de sempre. Claro que esta bagagem o faz mais experiente, modifica seu humor e condiciona sua disponibilidade, mas passa ano, passa história, a sensação é sempre a mesma, ele jamais se muda, ou aluga, seu próprio corpo. Coisa realmente difícil de acreditar.

Encontrei num blog chamado July´s

"Quanto mais insana for tua mente, mais liberto será teu corpo…
Quanto mais libidinosos forem teus pensamentos, mais sentirá prazer em pensá-los, em planejá-los e por fim realizá-los.
Quando conseguires se abster das obviedades, e criares tuas regras, do teu jogo, o começar a jogá-lo, verás que o mundo, o teu mundo… vai além do qualquer um pudesses imaginar…
Liberta-te de tudo, de ti mesmo… e verás quem é de verdade…
Sentirá o que nunca sentiu… e esse desconhecido é o que surpreende e encanta."

Entendo esse tipo de fetiche das pessoas pela liberdade, mas a apropriação da idéia é indébita. Quanto ao texto, se for sobre sexo, ok, até concordo em parte. Sobre o resto, devo lembrar que liberdade depende de coletivo. Cuidado, simbolizar sozinho é coisa de gente "insana".

terça-feira, 1 de julho de 2008

Certas ciladas da Igualdade

Quando o sociólogo francês Bourdieu disse que, na Escola, desiguais devem ser tratados como desiguais, deu-nos um recado muito importante: tratar-nos formalmente como iguais tendo nós origens bastante distintas, e ainda, valorizarmos dons e resultados individuais, sendo nós desiguais em condições, é reproduzir uma sociedade que enfatiza e hierarquiza diferenças, escondendo a distinção do que vale mais no discurso formal e normativo de respeito à diversidade, ou se você preferir, da suposta igualdade perante a lei e ao tratamento. Não é difícil lembrar das próprias experiências para comprovar que a Escola é absolutamente assim, nem se precisa de muita correlação para concluir que uma sociedade que assim o faz, além de objetivamente injusta, é essencialmente hipócrita.
Por sua vez, o grosso da teoria socialista, a começar por Marx, diz que sociedade justa é sociedade sem interesse de classes, de igualitariedade de condições em todos os campos e em todos os sentidos. Assim, desdobrando a teoria à atualidade, seria uma sociedade que visa eliminar desigualdades estruturais e “estruturantes”, ao mesmo tempo em que possibilita-nos o pleno exercício da diversidade. Todos diferentes, vistos como diferentes, diversos, mas nunca desiguais em possibilidades.
No ocidente, temos a igualdade formal, liberal, em uma sociedade que valoriza o mérito, o esforço e conquista individual, meios ideais para o cultivo da competitividade capitalista, e é claro, graças à isonomia e ao discurso da diversidade que dela se correlaciona, temos desigualdades em muitas esferas sem o ônus dos conflitos que o escancaramento destas desigualdades deveria gerar.
A direita se constrói mergulhada nessas diferenças expostas e desigualdades camufladas. O sociólogo Flávio Pierucci dá uma boa dica para se pensar a direita, para estas pessoas “a ilusão do sensível encaixa à construção do perceptível”, ou seja, na direita segregamos as partes do mundo baseados no que percebemos com os sentidos, e tomamos isso como base de nossas verdades. Homens e mulheres são iguais perante a lei, mas tidos como visivelmente diferentes, tratados de maneira desigual, desigualdades baseadas nessas diferenças aparentes. Os debates sobre isso na mídia passam longe da discussão sobre o gênero; na tela da TV, bem como nas mesas de bar, diferenças entre homem e mulher são dadas, biologizando uma questão que é essencialmente social.
Para ficar mais fácil, trace uma reta. Infinita. Para a esquerda desta reta temos a direção de uma igualdade plena, utópica, abstrata, e tão simetricamente dada, que todos os seres nela podem ser absolutamente diferentes sem que nenhuma diferença incorra em desigualdade de qualquer natureza. Em outras palavras um extremo de sociabilidade, uma diversidade plena, mas concomitada e concomitante à igualitariedade absoluta. Então, fica tudo aparentemente simples. Quando mais perto disto, mais à esquerda, quando mais longe, mais à direita. Certo? Errado!
Se as coisas só dependessem deste referencial para entrar na reta, Jesus estaria mais a esquerda que Che Guevara, já Maluf e Hebe estariam próximos de Hitler. Ainda que o último caso me agrade, a idéia não é boa o bastante para explicar-nos o dilema.
A posição na reta só pode ser pensada de acordo com a predisposição de subversão da ordem social (tradição, conservadorismo, estamentos, senso comum, hierarquias, democracia majoritária e formal, enfim) em prol de maior aproximação do ideal de igualitariedade. Nesse sentido quase tudo que conhecemos está à direita. Como o ideal de igualdade é abstrato, difuso, e tende ao infinito, além dessa rebeldia fundamental, uma crítica constante as próprias percepções e especulações são pré-requisitos indispensáveis para a esquerda em qualquer posição.
Em suma, o texto é prescritivo: a defesa desenfreada da diversidade por parte da direita mascara desigualdades que a própria direita fomenta. A defesa desenfreada da diversidade por parte da esquerda também é perigosa, porque ela deve ser desejosa de uma igualitariedade de condições, e não de existência, e em tempo, defender a diversidade não é defender uma igualitariedade que permita a coexistência pacífica e justa de um mundo diverso.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Por um pouquinho mais de teoria e prática

“É preciso correr o mais que se pode para permanecer no mesmo lugar”
Lewis Carrol, Alice Através do Espelho

Quanta coisa vem a cabeça quando penso em meus últimos tempos. Se não em número de experiências, elas vêem em potência modificadora e quanto a isto não há discussão. Para além de novos conceitos, até mesmo os nada científicos, a mim ficou impossível negar que é impossível não internalizá-los de maneira profunda e volátil, como deve ser qualquer certeza.
Entender que a originalidade no amor é busca nada original, mas por outro lado, a mera reprodução instrumental de qualquer manifestação de amor em diferentes relações ou conquistas chega a ser ridícula e desrespeitosa, ou ainda, que a esquerda intelectual tem uma história concisa no século XX, e em tempo, bem conhecê-la é imprescindível à compreensão da própria esquerda, tudo isso, já não me seria mais o suficiente. Tampouco dá pra ficar aqui escrevendo sobre coisas que não entendo, ou sequer tenho eu qualquer propriedade para escrever.
Por tudo, vou eu tentar de forma sintética transmitir a impressão que tive das então múltiplas fontes e dos meus últimos tempos.
Sem essencialismos, entendo que nossos caminhos não devem ser previamente calculados como se fossem metas empresariais de si (ampla divulgação das pilhas de auto-ajuda do empreendedorismo no mundo do você s.a). Não porque, com o tempo, a hipertrofia da razão nos meios nos impede uma reflexão crítica dos fins. Claro que meu conselho parafraseando alguma coisa na Teoria Crítica, além de torto, de nada serve ao mundo atual. Aliás, também não serviria assim, cru, como geralmente são as epifanias blogueanas. Descrevo-lhes portanto.
Não basta dar vazão ao sentir, ao curtir, ao intuir tanto quanto refletimos sobre os próprios caminhos. Os meios precisam ser instáveis para que duvidemos o tempo inteiro das escolhas. E nesses também é preciso deixar escapar certas oportunidades, principalmente as que soam mais prósperas. Na modernidade o prospero é o mais provável sinal de que você está na direção errada e direção é tudo o não se deve errar na modernidade. Eis até minha parva década de exemplo. Alienando, procrastinando, ignorando e até resignando-me da reflexão crítica de meus próprios fins, fiquei assim, perdido e partido aos meios.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Adornidades

Ainda no corredor vieram em grupo de sete. Pela heterogeneidade do grupo se tratava de confusão. Perguntaram-me se era eu um judeu. É comum em escolas particulares, volta e meia, alguém se proclamar nazista aos quatro ventos, quase uma espécie de ritual, como se estivessem chamando nós, os professores, para a briga.
Os alunos do corredor, carregando um sarcástico sorriso, queriam ver se o circo iria pegar fogo. Acusavam o colega, um albino recém chegado, de se proferir nazista até o último fio de cabelo. O próprio, quando adentrei a sala, já inquiria:
-O sr. é judeu professor? Nem pensei:
- Sou! E sou negro, sou mulher, sou latino e homessexual, sou gordo e anorexo, sou sua mãe e sua empregada, sou seu pai como empregado, sou desempregado, sou palestino, islâmico, sem-terra, analfabeto, brasileiro e acima de tudo, hoje, sou judeu!
O circo pegou. Perdoem todo pedantismo e o tom blasé que virá a seguir, mas soltei-lhes uma aula clássica para este tipo de ocasião. Falei da valorização vida no liberalismo, da abundância da morte na mídia e dos massacres genocídas do século XX, alertei para nosso distanciamento e frieza, evoquei Adorno, citei Hemingway, fui as torturas da SS e da Ditadura no Brasil e quando todos estavam devidamente chocados, saí à francesa 10 minutos antes, os deixando ali, sós com silêncio desconsertante. Terrorismo em aula? Emaranhado de contradições? Pouco importa! Apesar de puro teatro, aulas assim que acabam comigo, me demandam uma energia e evocam sentimentos esguios, todos arraigados a uma espécie de exclusivo silêncio, solitário, burguês e revolto, indignado e totalmente meu.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Pais e Filhos

Não que ar não houvesse, tão pouco que eu não o conseguisse respirar, digo-lhes apenas que me faltou o ar. É que a busca pela sensatez é séria em português. A língua não atrapalha, mas às vezes não ajuda. O emaranhado de idéias truncadas, confusões, palavras deslocadas vão nos deslizando os sentidos na direção de emoções contrárias, ao menos, aos desejos.
Na academia sabemos que pais e filhos são construções sociais. E assim é a infância, o parentesco, o amor. Entretanto, há antropólogo que não carregue trauma familiar? Há sociólogo que não lamente rompimento? Há alguém neste mundo que se distancie e objetifique os próprios pais?
Aqueles que carregam suas lamentáveis histórias de violência simbólica jogam o jogo das compensações: o que é bom, o que foi ruim. Assim vivemos resignados em bom-dias e aniversários, nas palavras de amor e fofocas de parentes. Vivemos mesmo sabendo que no fundo deste cotidiano sempre nos perdemos da séria busca pela sensatez, e em bom português.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Lili e o livro que ganhei em Bruxelas




Como o post sobre a paixão fez tanto sucesso (até parece rsss), aqui vai a continuação meio atravessada! L'amour dure trois ans, livro de Frédéric Beigbeder, fantástico escritor! Um dia, em Bruxelas, ganhei este livro da menina nesta foto. Chegaram, bateram a foto e se foram. Não havia razão aparente. Tudo que ela esboçou foi um sorriso e estendeu-me o livro com a mão esquerda. Mais uma das coisas "mágicas" da vida, e aliás este é o unico livro que não empresto. Tentei lê-lo algumas vezes, mas está em francês e paro na metade.
O texto só fará sentido somada outra garota, o contexto. Lili Rose foi a primeira pessoa que me deu vontade de conhecer pela net. Seus textos e idéias são fantásticos. Sou fascinado por sua personalidade já tem muito, muito tempo. Mesmo que seja uma mentira bem construída essa garota povoa meu imaginário.
E eu parecia dela distante até que um dia, em um de seus blogs, ela postou um trecho do meu livro, que ela mesmo traduziu. Meu trecho predileto, nem acreditei. Hoje lembrei disso e aqui está. É algo com o qual vocês terão que conviver, Beigbeder, eu e Lili.

Aliás, como estou bem mundano, minha epígrafe é Foo Fighters, num dos melhores versos deles, Aint it the life :

"See the actors run and hide
Fake it all in stride
One day we all can say where were gone
And haunt the ground were from
Everythings so open wide
Hear within the divide"


"O amor é um combate perdido à partida.
No início tudo é belo, mesmo vocês. Vocês nem querem acreditar que estão assim tão apaixonados. Cada dia traz o seu pequeno carregamento de milagres. (...) A felicidade existe e é simples: é um rosto. O universo sorri. Durante um ano a vida não é mais que uma sucessão de manhãs ensoleiradas, mesmo à tarde quando neva. Escreveis livros sobre tudo isto. Casais, o mais rapidamente possível - porquê reflectir quando somos felizes? Pensar deixa-nos triste; é a vida que deve vencer.

No segundo ano as coisas começam a mudar. Passais a ser mais ternos. Sentis orgulho da cumplicidade que existe na vossa relação. Compreendeis a vossa mulher por meias palavras; que alegria ser só um. (...) Fazeis amor cada vez menos e acreditais que não é grave. Estais persuadidos de que em cada dia que passa o vosso amor é cada vez mais sólido, quando na verdade o fim do mundo está para breve. Defendeis o casamento junto dos vossos amigos celibatários, que de resto já nem vos reconhecem. Mas vós mesmos, estais seguros de que ainda vos reconheceis (...)?

No terceiro ano, já não deixais de olhar para as miúdas frescas que iluminam a rua. Já não falais com a vossa mulher. Passais horas no restaurante com ela a ouvir o que dizem os vizinhos da mesa ao lado. Saís para programas fora de casa com mais frequência: o que vos dá uma desculpa para não foder. Rapidamente chega o momento em que já não suportais mais a vossa mulher, até porque estais apaixonados por outra. Há um único aspecto sobre o qual não se enganaram: efectivamente, é a vida que tem a última palavra. No terceiro ano há uma boa e uma má notícia. A boa notícia: farta, a vossa mulher deixa-vos. A má notícia: começais um novo livro.

(pp 15-16)

Beigbeder, Frédéric
L'amour dure trois ans
Gallimard, 1997 (tradução livre feita por Lili Rose)

Como foi só citação, cito mais um que disse mais ou menos isso:

Seguimos assim até o dia em que aparece alguém. E sentimos o desejo de viver, de sentir, de amar, de nos perdermos em todos os caminhos, enfim, de repetir sim todos os erros anteriores enquanto cantamos, como o Chico:

" Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa
Pulsa, pulsa mais”

Tentar não tentar...

Na contramão do mundo, odeio ser alguém que não desiste das coisas. Perseverança, determinação, assertividade, resiliência (termo físico aplicado a auto-ajuda executiva), odeio tê-las comigo.
Hoje fiquei na janela com uma vontade enorme de me cansar. Certos quereres não devem ser “queridos” e ponto. Sei lá, acho que principalmente os quereres individualistas, quereres irracionais, quereres clichês do corpo e da alma. Se bem que o Schopenhauer dizia que toda vontade é irracional, aliás, foi por isso ele que disse que “viver é sofrer”. Nosso querer saciado nos provoca tédio e em seguida volta indefinidamente. Dor e o tédio num balé infinito e insuportável dentro da gente, pra sempre.
Eu é que não queria ser amigo desse cara, heim! Imagina, lamento eterno no boteco...sai pra lá Schope....hahaha.
Mas querer parar de querer não pode ser pedir demais! Ignoro o Leminski logo abaixo! A partir desta data eu solicito renunciar as minhas próprias solicitações: Steevens, eu não quero que você queira mais isso, assinado Steevens!
Não tem jeito, não adianta tentarmos não querer aquilo que queremos, não assim, não esse tipo de vontade que falo. Minha conclusão é simples. A razão de tudo isso é que estamos presos nessa caixa chamada corpo, é ela que não deixa nosso espírito parar de querer. Só sentimos liberdade na plena compaixão pelos demais homens, ou naqueles ínfimos instantes de contemplação desinteressada, todos os dias, no gap entre o perceber e o ter vontade de algo ou alguém.
Agora, independente do Schopinho, se existir destino de alguma maneira, aí dançamos! Teremos que desistir de desistir, de vez!