Certa vez li um romance onde o personagem dizia que uma relação termina quando na ausência de esperança naquela relação corremos a ver esperança noutro lugar. Dizia ele que este outro lugar não precisava ser outra pessoa, outra relação, outra vida. Muitas vezes era essa a única forma de, inclusive, preservar o amor.
No livro, o personagem dizia desencontrar-se da mulher amada por uma transposição gradual de esperança para outra vida, no caso, imprescindível a ele naquele momento.
Foi quando um de seus amigos, atento e preocupado, perguntou-lhe:
-Mas esperança imprescindível de que?
E ele respondeu em tom enfático:
-De permanecer!
sábado, 29 de dezembro de 2007
Não leio romances
sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Maldito Sentimento
Maldito sentimento
Que toma-me em veneno
E corrói-me por dentro,
Odeio até mesmo odiar-te
Pois que a mim deste mito viciar-te,
E agora fico entregue ao teu contento!
Só de vazia ansiedade me alimento
Em teu químico tear embriagado
Mas mesmo sem futuro ou sem virtude,
Embora vil és tão bonito
Que de teu mal não vos desejo
E mais maldita é tua sina
Até que minha ilicitude!
Destarte a própria intensidade
Inversa a vossa infinitude
Que invés da morte a piedade
O que te anseio é que se mude.
Stevens, verão de 2007
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
O Portão
Ela estava tomando água bem devagarzinho e ao mesmo tempo olhava fixo para a janela. Não que esperasse algo, é que lá fora estava a chover demais. Coisas de três da tarde, uma perna no chão a outra balançando freneticamente no braço do sofá. O filme da TV parecia uma daquelas bobagens interessantes, mas lutava para chamar-lhe a atenção. Quando foi como se ouvisse barulho no portão. Daquele sofá, de relance parecia a ele, mas antes que ela pudesse se levantar ele já não estava mais ali. Pensou coisa estranha, depois lembrou. Mesmo sabendo o que ele queria realmente não estava interessada.
Só mais a noitinha, quando abriu o portão para a mãe, ela encontrou o envelope branco e molhado, já um tanto amolecido de umidade. Nem precisava abrir para saber que era uma carta de amor ridícula, como as do Álvaro de Campos. Desengonçada e não muito grande, foi primeira ali olhada, com a mãe ainda parada no portão. A senhora de sorriso estampado e florido chacoalhou o guarda-chuva e perguntou do que se tratava a escritura, mas a menina, cheia de caprichos, fechou o rosto e a carta dizendo que era coisa dela.
Devagaringo, como se bebesse água, subiu na direção sentindo-lhe pulsar um pouco de vaidade. Propositada e preguiçosa, jogou-se na cama e se abriu definitivamente, a menina e a carta:
Uma epígrafe de tinta borrada dizia, "MICHELLE, MY BELLE. SONT LES MOTS QUI VONT TRES BIEN ENSEMBLE". A letra era bem traçada, declinada para direita e de longas extremidades, mereceu um suspiro.
Acalmo-me. Não te verto linhas de ilusão nem mágica, verto-te aqui desculpas. Creio que já as dei a mim mesmo e foi ao bel prazer de meu corpo que declinei nossa amizade. Pura vilania esta minha!
Para consolar-nos preciso servir minha explicação embriagada. Distinto de ti sou dado as justificativas, não bebo e foi logo isso que me pareceu tamanho vilipendio. Relicário delicado, nossa amizade foi daquelas em que nada se poderia forçar, e por essa minha brutalidade ter quebrado quase tudo, agora até mesmo a carta me parece força bruta.
Sabes que escrevo mais para mim do que para ti. Sei que me considera, e assim funciona esta verdade. Também te considero muito, minha rara, e são estas linhas as de um lamento doído pelo custo da cumplicidade. Pense tu, vendi-a como se fosse o mais natural amigo perdendo toda naturalidade. Mas dizem os poetas ser assim coisas de amor truncado.
My Belle, não se dá volta neste caminho, reserva-nos o futuro um gosto de café requentado, mas é evidente que o tempo nos fará o vil favor de dar-nos o esquecimento. Aos poucos isso tudo é apenas fato e aqui, como disse, só lamento o dissabor de nosso estado.
Ainda há fôlego para terminar a missiva armando uma armadilha. A ti revelado e a mim descrente ficou fácil descrever-lhe o que vi em minha letargia:
Mais que amor seria a nossa companhia. E eu a quero real, despida de pudores. Quero-te natural e sem os mitos do sobrenatural. O sentido será a cada encontro, nem antes, nem depois. E não há planos para os dois, inda mais presente que não englobe a todos. Não há descompasso, a lucidez cede quando há impasse sem que nos envergonhemos de nossos próprios embaraços. Nesse não lugar, sem nome ou lei, tudo melhora nosso olhar, em história e no contar não sou senão vosso igual, e em nossa terra não há reis.
A única condição inusitada, daquela que nos provoca tímido gosto de mágica, mora em exponenciarmos nossas virtudes e a isso render-nos nossas vidas, pois que já sendo muito, já somos cada um em si no próprio espaço e muito mais que o dobro quando juntos.
Deixo-te então essa utopia, quem sabe a catarse de um tipo de beijo que algum dia, alguém possa descrever-me.
Utopia,
Paul
As rimas fáceis, de amor ridiculo, ele realmente guardou. Michelle, um tanto desconcertada, deitou de vez as costas na cama e suspirando novamente, lamentou. Com uma certa delicadeza a carta amassada foi dobrada junto ao peito. Tudo isso durou um instante.
Logo o cheiro de janta acompanhado do grito de sua mãe a fez abandonar o entento num canto de quarto qualquer. E foi naquele singelo levantar que sua vida mudou pra sempre.
Paul aparentemente sumiu de sua memória e do portão, mas foi somente no portão que ela deu lugar a John. Até hoje o resto é Paul...
Campos De Morangos Para Sempre
Deixe-me te botar pra baixo
Porque eu estou indo aos Campos de morangos
Nada é real
Não há por que esperar
Campos de morangos para sempre
Viver é fácil com os olhos fechados
Sem entender o tudo que você vê
Está ficando difícil ser alguém
Mas tudo parece funcionar bem
E isso não é muito importante pra mim
Acho que não tem ninguém na minha árvore
Quer dizer, deve estar alto ou baixo
Ou seja, você sabe que não pode entoar
Mas tá tudo certo
Assim, penso que não é tão ruim
Sempre, não, algumas vezes penso que sou eu
Mas sabe, eu sei quando é um sonho
Eu penso que um Não significara um Sim
Mas tá tudo errado
Por isso eu acho que discordo
Aquilo que escrevo são as minhas falas nos diálogos que terei com o meu suposto futuro, quanto as falas futuras, obviamente, não as tenho. Nenhuma das histórias terá começo, meio ou fim. São todas elas simultâneas, e aqui as colocarei porque preciso esgotá-las. Não me cabem mais e não cabem mais em mim. O post será longo, logo, peço a mim paciência. Também devo avisar-me que me arrependo e aproveito para pedir-me desculpas por ter deixado maltratar-me tanto...
Bando.leiros.com
Ele me ligou e dizendo do apartamento. Sempre teve um passo a frente. Mas muito melhor do que o apartamento foi o fato de que ele me ligou. Desde Cuba ele jamais havia me ligado novamente. Falamos-nos algumas poucas vezes, mas a iniciativa foi toda minha e pouco importa, o que importa é que ele me ligou.
Hoje, na Câmara Municipal, nos encontramos para a luta. A favela do RealPark foi desocupada de forma ilegal, com destruição de bens pessoais e repressão policial. A defensoria é fraca, e seu pedido de liminar ridículo. Muitos movimentos estavam lá, inclusive o Jejê do movimento Sem Teto. Sexta a noite já temos compromisso, acaba a trégua da PM e o pau vai comer.
Mas, como disse, é o depois que importa agora. Fomos a casa dele e chamamos o Rafa. Por alguns instantes estava (re)formado o triângulo da ilha e Santo Amaro. E então me contaram, me deixavam o apartamento para viverem, com outros oito, a nossa idéia de bando!
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
Como não posso fugir de mim mesma,
fujo da minha vida.
Não quero vê-la por uns tempos.
Não estamos nos entendendo.
Quero ficar debaixo da cama,
com livros e lanternas,
esperando o dia passar...
E que ele passe bem devagar!
Quero dormir o sono dos vampiros,
vasculhar os sonhos,
e acordar em outros tempos.
Katia, dez 2007
quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Ele gosta de diálogo-fragmento e eu gosto dele de verdade...
_______________________________________________________________
No devaneio do trecho marxista sobre arte, saimos da Bela Vista em direção ao parque. Futebol de terça e livro de sebo achado a dedo, onde Marx falava daquilo que nosso olho não vê, Marx era um grande sociólogo oftalmologista, dos qe curarm cegueiras. Em segundos pulamos para Antonioni, era o filme BlowUP, creio. Gostamos de Antonioni (e esse argumento é dele) porque Antonioni coloca seu filme de verdade entre as frestas dos tolos argumentos dos cotidianos abundantes. Contava-me que, no filme, o personagem principal era um fotografo meio hedonista e foi nessa hora passávamos pelas fontes do Ibirapuera em pleno rush. Num dia de shot casual o fotografo descobre, num canto casual, da foto casual, um possível crime que não tem final e não é casual. Passada então as fontes luminosas, perguntei-lhe se fotografia era reprodução ou representação do real, ponto chave e xeque-mate da conversa. Um pouco antes discutíamos o incomodo em saber da existência de limites mentais, daqueles raros, mas que só não alcançamos pelas escolhas que fizemos... E babem-se reverências aos amigos intelectuais que respeitamos, mas mentalmente não alcançamos. Então, ele respondeu:
- Representação, mas por quê:
- Veja, porque nos permite ver aquilo que o olho não vê, logo, é representação. Essa aí é a do Walter Benjamin.
-Putz, é mesmo.
Chegamos ao futebol. Stop no papo, luxei o dedo anelar da mão esquerda, mas mesmo assim jogamos bem. Coisa casual, futebol hedonista, reprodução pra caramba, mas o filme é de verdade e adoramos o Benjamim...
domingo, 2 de dezembro de 2007
Quatro em um
Quando eu cheguei ali a roda estava armada. O menino mais bonito era também o mais feio, e seus movimentos desesperados esvaiam-se de sua imagem e verso rebuscado. O outro olhava suave, só ponderava coisas em tons amigáveis, e com alguns desvios de verdade era como se tivesse uma sensibilidade a cumprir pelo afeto que sentia aos dois primeiros. Havia ainda uma quarta parte, mas estava sempre distanciada e estrangeira dos demais, não que faltasse simpatia ao homem, em verdade era ele pura simpatia, mas as idéias de descaso arrastado, e uma certa delicadeza que lhe cabia, acabavam por não combinar com as tensões do grupo.
A ultima pessoa, de quem ainda não falei propositalmente, era quem em verdade lhes unia. Talvez, não por acaso parecesse ser única mulher num raio de cem quilômetros. Descrevê-la não é tarefa fácil, por conseguinte deve você imaginar que ela não era nada convencional, mas creio que não digo nas formas, digo nas maneiras. Seus movimentos eram raros nas moças da cidade, e se era uma forasteira, coisa que não sei, tinha sotaque leve. Estrangira sei que era.
Estava sempre chamando a atenção da roda, mas sem malicia, eram apenas toques e causos, sorrisos e bromas. Falava muito a respeito de si, quase o tempo todo. Era como se tivesse pressa para contar a própria vida, e era isso nos presenteava o pouco de sua fragilidade. No resto era como uma muralha sendo construída tijolo a tijolo.
O jovem mais feio, então, disputava exclusividade, vertia intenções amorosas desconcertantes, embaralhava-se em movimentos perigosos e falsetes mal calculados. O fato é que sua inabilidade era declarada, e de tão exposta, expusera todo um resto que deveria ser só dele, coisas que não publicisamos por óbvias razões.
Seus desfalques atormentavam a todos na roda. Afastava a quarta parte, confundia o olhar suave, desconcertava a moça. A mim, acabado de chegar, pouco afetava. Apenas me forcei a não sentir pena, mas dava-lhe compaixão porque conhecia bem os caminhos daquele labirinto.
A história não tem fim, trata-se de um grupo eternamente de pé na calçada da memória. São cinco, comigo na roda: a mulher-menina, raro canto inebriante de vida e movimento; um belo jovem, diminuido por ser culto refém de sua juventude e de seu tempo; um segundo rapaz iluminado e doce, perdido como se a vida por ele estivesse apaixonada; e o quarto, o sorriso afastado, quase um convite a sair daquela quadra de entranhas tão aparetemente mundanas.
Eu, quinto, sou o intruso locutor. Aqui dublo a voz velha e onipresente, que finge nunca se entregar aos outros quatro, mas declino-me a confessar ao amigo leitor: se finjo é porque nada sei sobre eles, é porque morro medo de meus heterônimos!
Bem treinados jogos de retórica
Eu sempre sonhei em ter uma banda chamada Gengivas Sangrentas. Mentira, inventei esse nome agora, mas serve para dizer que o bacana em uma banda é o entrosamento. Quando você toca parece que a harmonia da música se instaura entre os elementos, pelo menos naquele momento, e invariavelmente isso parece mágico. Parece, mas não é.
Não existem coincidências, são meros fenômenos estatísticos no universo das variáveis possíveis no gradiente das classes e suas determinações socioeconômicas e culturais. Não existe amor inexplicável, paixão é um fenômeno psíquico-químico e amor não passa de encontros circunstanciais dando espaço para afinidades eletivas e graus de convivência, tudo isso altamente simbologizado pelos paradigmas e necessidades biológicas e psíquicas daquele indivíduo, naquela cultura e naquele tempo.
Não há espíritos, logo não há pré-destinação metafísica, e não há Deus. Morreu acabou, o futuro é projeção especulativa. Família, infância e juventude são construções da nossa cultura, não existem fora dela, ou seja, sempre se pôde e sempre se poderá coexistir sem essas construções. A Justiça, liberdade e igualdade são conceitos igualmente construídos, se levados ao extremo de seus genéricos sentidos, distroem a diversidade que constitui a cultura que os constituiu. Implosão conceitual não existe, o mundo jamais será livre, justo e igual ao extremo. Assim também são os casamentos e direitos. Flexíveis, eles variam com a história e só fazem sentido lógico se aplicados em benefício do prazer e da transmissão egoística de nossos próprios genes na temporalidade que lhes convém.
Você mesmo é um coeficiente estatístico de acumulo e transformação de cultura através dos sentidos e processos cerebrais. A memória mais linda que você guarda na sua cachola meu nego, é um conjunto de equações químicas e físiscas, não passa disso. Sendo assim, você e a sua história são ridiculamente possíveis no plano do cálculo e da lógica.
Como você pôde ver, não tive a tal banda Gengivas Sangrentas. O que quero dizer é que se a tivesse tido e fosse um sucesso inexplicável, seria, assim, totalmente explicável.
E cá pra nós, viver assim, com tudo respondidinho no seu devido lugar, me parece absolutamente mágico. "Sorte" que nós céticos sabemos, mágica é apenas um truque bem treinado, mesmo que seja de pura linguagem! Não, é...