sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Adornidades

Ainda no corredor vieram em grupo de sete. Pela heterogeneidade do grupo se tratava de confusão. Perguntaram-me se era eu um judeu. É comum em escolas particulares, volta e meia, alguém se proclamar nazista aos quatro ventos, quase uma espécie de ritual, como se estivessem chamando nós, os professores, para a briga.
Os alunos do corredor, carregando um sarcástico sorriso, queriam ver se o circo iria pegar fogo. Acusavam o colega, um albino recém chegado, de se proferir nazista até o último fio de cabelo. O próprio, quando adentrei a sala, já inquiria:
-O sr. é judeu professor? Nem pensei:
- Sou! E sou negro, sou mulher, sou latino e homessexual, sou gordo e anorexo, sou sua mãe e sua empregada, sou seu pai como empregado, sou desempregado, sou palestino, islâmico, sem-terra, analfabeto, brasileiro e acima de tudo, hoje, sou judeu!
O circo pegou. Perdoem todo pedantismo e o tom blasé que virá a seguir, mas soltei-lhes uma aula clássica para este tipo de ocasião. Falei da valorização vida no liberalismo, da abundância da morte na mídia e dos massacres genocídas do século XX, alertei para nosso distanciamento e frieza, evoquei Adorno, citei Hemingway, fui as torturas da SS e da Ditadura no Brasil e quando todos estavam devidamente chocados, saí à francesa 10 minutos antes, os deixando ali, sós com silêncio desconsertante. Terrorismo em aula? Emaranhado de contradições? Pouco importa! Apesar de puro teatro, aulas assim que acabam comigo, me demandam uma energia e evocam sentimentos esguios, todos arraigados a uma espécie de exclusivo silêncio, solitário, burguês e revolto, indignado e totalmente meu.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Pais e Filhos

Não que ar não houvesse, tão pouco que eu não o conseguisse respirar, digo-lhes apenas que me faltou o ar. É que a busca pela sensatez é séria em português. A língua não atrapalha, mas às vezes não ajuda. O emaranhado de idéias truncadas, confusões, palavras deslocadas vão nos deslizando os sentidos na direção de emoções contrárias, ao menos, aos desejos.
Na academia sabemos que pais e filhos são construções sociais. E assim é a infância, o parentesco, o amor. Entretanto, há antropólogo que não carregue trauma familiar? Há sociólogo que não lamente rompimento? Há alguém neste mundo que se distancie e objetifique os próprios pais?
Aqueles que carregam suas lamentáveis histórias de violência simbólica jogam o jogo das compensações: o que é bom, o que foi ruim. Assim vivemos resignados em bom-dias e aniversários, nas palavras de amor e fofocas de parentes. Vivemos mesmo sabendo que no fundo deste cotidiano sempre nos perdemos da séria busca pela sensatez, e em bom português.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Lili e o livro que ganhei em Bruxelas




Como o post sobre a paixão fez tanto sucesso (até parece rsss), aqui vai a continuação meio atravessada! L'amour dure trois ans, livro de Frédéric Beigbeder, fantástico escritor! Um dia, em Bruxelas, ganhei este livro da menina nesta foto. Chegaram, bateram a foto e se foram. Não havia razão aparente. Tudo que ela esboçou foi um sorriso e estendeu-me o livro com a mão esquerda. Mais uma das coisas "mágicas" da vida, e aliás este é o unico livro que não empresto. Tentei lê-lo algumas vezes, mas está em francês e paro na metade.
O texto só fará sentido somada outra garota, o contexto. Lili Rose foi a primeira pessoa que me deu vontade de conhecer pela net. Seus textos e idéias são fantásticos. Sou fascinado por sua personalidade já tem muito, muito tempo. Mesmo que seja uma mentira bem construída essa garota povoa meu imaginário.
E eu parecia dela distante até que um dia, em um de seus blogs, ela postou um trecho do meu livro, que ela mesmo traduziu. Meu trecho predileto, nem acreditei. Hoje lembrei disso e aqui está. É algo com o qual vocês terão que conviver, Beigbeder, eu e Lili.

Aliás, como estou bem mundano, minha epígrafe é Foo Fighters, num dos melhores versos deles, Aint it the life :

"See the actors run and hide
Fake it all in stride
One day we all can say where were gone
And haunt the ground were from
Everythings so open wide
Hear within the divide"


"O amor é um combate perdido à partida.
No início tudo é belo, mesmo vocês. Vocês nem querem acreditar que estão assim tão apaixonados. Cada dia traz o seu pequeno carregamento de milagres. (...) A felicidade existe e é simples: é um rosto. O universo sorri. Durante um ano a vida não é mais que uma sucessão de manhãs ensoleiradas, mesmo à tarde quando neva. Escreveis livros sobre tudo isto. Casais, o mais rapidamente possível - porquê reflectir quando somos felizes? Pensar deixa-nos triste; é a vida que deve vencer.

No segundo ano as coisas começam a mudar. Passais a ser mais ternos. Sentis orgulho da cumplicidade que existe na vossa relação. Compreendeis a vossa mulher por meias palavras; que alegria ser só um. (...) Fazeis amor cada vez menos e acreditais que não é grave. Estais persuadidos de que em cada dia que passa o vosso amor é cada vez mais sólido, quando na verdade o fim do mundo está para breve. Defendeis o casamento junto dos vossos amigos celibatários, que de resto já nem vos reconhecem. Mas vós mesmos, estais seguros de que ainda vos reconheceis (...)?

No terceiro ano, já não deixais de olhar para as miúdas frescas que iluminam a rua. Já não falais com a vossa mulher. Passais horas no restaurante com ela a ouvir o que dizem os vizinhos da mesa ao lado. Saís para programas fora de casa com mais frequência: o que vos dá uma desculpa para não foder. Rapidamente chega o momento em que já não suportais mais a vossa mulher, até porque estais apaixonados por outra. Há um único aspecto sobre o qual não se enganaram: efectivamente, é a vida que tem a última palavra. No terceiro ano há uma boa e uma má notícia. A boa notícia: farta, a vossa mulher deixa-vos. A má notícia: começais um novo livro.

(pp 15-16)

Beigbeder, Frédéric
L'amour dure trois ans
Gallimard, 1997 (tradução livre feita por Lili Rose)

Como foi só citação, cito mais um que disse mais ou menos isso:

Seguimos assim até o dia em que aparece alguém. E sentimos o desejo de viver, de sentir, de amar, de nos perdermos em todos os caminhos, enfim, de repetir sim todos os erros anteriores enquanto cantamos, como o Chico:

" Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa
Pulsa, pulsa mais”

Tentar não tentar...

Na contramão do mundo, odeio ser alguém que não desiste das coisas. Perseverança, determinação, assertividade, resiliência (termo físico aplicado a auto-ajuda executiva), odeio tê-las comigo.
Hoje fiquei na janela com uma vontade enorme de me cansar. Certos quereres não devem ser “queridos” e ponto. Sei lá, acho que principalmente os quereres individualistas, quereres irracionais, quereres clichês do corpo e da alma. Se bem que o Schopenhauer dizia que toda vontade é irracional, aliás, foi por isso ele que disse que “viver é sofrer”. Nosso querer saciado nos provoca tédio e em seguida volta indefinidamente. Dor e o tédio num balé infinito e insuportável dentro da gente, pra sempre.
Eu é que não queria ser amigo desse cara, heim! Imagina, lamento eterno no boteco...sai pra lá Schope....hahaha.
Mas querer parar de querer não pode ser pedir demais! Ignoro o Leminski logo abaixo! A partir desta data eu solicito renunciar as minhas próprias solicitações: Steevens, eu não quero que você queira mais isso, assinado Steevens!
Não tem jeito, não adianta tentarmos não querer aquilo que queremos, não assim, não esse tipo de vontade que falo. Minha conclusão é simples. A razão de tudo isso é que estamos presos nessa caixa chamada corpo, é ela que não deixa nosso espírito parar de querer. Só sentimos liberdade na plena compaixão pelos demais homens, ou naqueles ínfimos instantes de contemplação desinteressada, todos os dias, no gap entre o perceber e o ter vontade de algo ou alguém.
Agora, independente do Schopinho, se existir destino de alguma maneira, aí dançamos! Teremos que desistir de desistir, de vez!