Faltam dois dias para a eleição e resolvi falar um pouco sobre isso. Na verdade tem a ver com um post da Mary W no qual ela pergunta: onde você dirá que estava daqui cinqüenta anos quando lhe perguntarem sobre a primeira presidente mulher do Brasil?
Alguns dirão que lembram, mas votaram na outra. O que é ótimo, não?! Mas a absoluta maioria dos meus amigos, homens brancos e bem nutridos da metrópole, terá que dizer que não votou nela.
A maioria sequer lembrará se era Serra ou Alckmin em quem votaram. Por sorte ainda terei alguns de seus emails e printscreens (um “toque” meu) a chamando de mulherzinha, terrorista, ladra, vagabunda, feia, antipática, autoritária, despreparada.
Terão ainda minhas linhas do diário contando sobre os que, a meu ver ainda piores, votaram nela contra a vontade, porque não tinham opção e era tudo um lixo para estes arautos da moralidade e consciência.
Dos meus seis votos em 2010 três terão sido em mulheres. E eu, lendo os tais emails, direi que estava do lado do feminismo, contra o conservadorismo e o patriarcado político, contra a direita. Diante dessa pergunta, espero que de minha neta, direi que estava do lado dela.
sábado, 2 de outubro de 2010
penso, logo voto!
terça-feira, 25 de maio de 2010
domingo, 23 de maio de 2010
Como os nosso pais
A independência tem um visgo. Em um mundo de hierarquias, ter suas próprias regras é facilmente confundível com plena liberdade. O famoso “pago minhas contas” é quase uma licença para matar que damos a nós mesmos. E é assim que atropelamos amigos, familiares, instituições em nome de nosso bem estar, de nosso equilíbrio, da chamada paz, que pode se traduzir por: ninguém pode me cobrar nada que eu não queira. Bom, aqui vai meu aviso, onde ouso isso, ouso dor.
Mas a moeda tem um lado inverso. A dependência tem o visgo para quem manda e para quem obedece. Quem manda, geralmente pais (em relação à família), mães (em relação aos filhos), gerentes (aos subordinados), patrões (aos empregados), maridos (a suas mulheres e amantes), filhos únicos (aos pais, principalmente mães), namorados ciumentos (em relação ao outro), o parente mais rico e soberbo (em relação ao resto da família), juízes, políticos e “adêvogados” (em relação aos desinformados), intelectualizados (em relação aos supostos inferiores), enfim, todos aqueles papéis e personas de grande potencial autoritário, ainda que de personalidades fracas, se viciam na aceitação do obediente, no prazer da governança alheia, de um modo mais geral, no “poder mandar”, dizer o que quiser, não ser cobrado, como nosso amigo independente lá em cima. O que obedece se vicia em migalhas de aceitação, em expectativa de reconhecimento, na ausência de responsabilidade (vicio em obedecer), na possibilidade de aproveitar-se do outro em surtos de benevolência dos superiores, na parceria com alguém supostamente mais poderoso, e por fim e mais triste, no medo.
O independente, o autoritário e o obediente são figuras dolorosas, fruto de uma grande cadeia de incompreensão. Não conhecem o prazer de uma fraternidade onipresente, não conhecem o prazer da tomada de consciência da imaginação sociológica, em geral, não são confiáveis, estáveis, ou verdadeiramente altruístas. Não entendem que liberdade é uma especulação humana sobre ser justamente aquilo que mais lhes falta, justamente uma outra especulação, ser humano.
sábado, 20 de março de 2010
Parado no pé da colina
Perto da colina havia um homem parado. Não se tratava de ninguém menos que um fidalgo. O vendo balançava sua capa fidalga e seu olhar, meio vesgo e cerrado, de longe, podia ser avistado. Mas seu coração, entre tantas camisas e o colete, bem como seus segredos, quais o mundo era joguete, estes, não se via nem na mais profunda proximidade. Não que ele os escondesse, disto sua nobreza egocêntrica não faria nenhuma questão, ao menos para os não clientes, e por mentir pra clientes não podemos culpá-lo. Na verdade não se via nada além de sua imagem, estática, porque ele próprio disso se convencia. No fundo era só um camponês esperto, que parado do outro lado da colina, roubava a consciência dos transeuntes, convencendo as vitimas que para lá olhavam que a sombra do espantalho do meu quintal era ele próprio, de corpo, alma e história fidalga. Mas quem não via fidalgo algum simplesmente ia embora maldizendo o camponês larápio, ou ainda, o próprio espantalho.
Perdoem a introspecção, mas por morar logo depois da colina, volta e meio recebo gente em casa reclamando de meu vizinho. Ando pensando em tirar o espantalho e perder algumas espigas em minhas safras, corvos também comem gente viva?
terça-feira, 9 de março de 2010
Pérolas de Matt e Ernst
Debaser
Pixies
Composição: Black Francis
Got me a movie
I want you to know
Slicing up eyeballs
I want you to know
Girlie so groovy
I want you to know
Don't know about you
But I am un chien Andalusia
(3x)
I am un chien Andalusia
Wanna grow
Up to be
Be a debaser, debaser
(10x)
Debaser
Got me a movie
Ha, ha, ha, ho
Slicing up eyeballs
Ha, ha, ha, ho
Girlie so groovy
Ha, ha, ha, ho
Don't know about you
But I am un chien Andalusia
(3x)
I am un chien andalusia
(12x)
Debaser
Passive Manipulation
The White Stripes
Composição: White stripes
Women, listen to your mothers
Don't just succumb to the wishes of your brothers
Take a step back, take a look at one another
You need to know the difference...
Between a father and a lover (repeat)
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Empurrão ao terremoto
França e EUA não tem perdão. Precisam dar a vida pelo Haiti, o produto mais cruel de seus processos coloniais, inclusive sob a etiqueta “globalização”. Antes do terremoto um haitiano vivia com dois reais ao dia. Agora, menos. O terremoto, desastre imprevisível, se associa a vulnerabilidade mais do que previsível deste sistema que deu e dá errado. A ajuda internacional (necessária) hoje é um paradoxo.
Cedido pela Espanha à França em 1697, foi uma das mais ricas colônias das Américas. Produzia um dos melhores acúcares do mundo, batendo, no século XVIII, o Brasil em exportações nesse campo. O Haiti foi o segundo país a proclamar independência, conquistada através de luta popular, a mesma que libertou seus escravos ainda no século XVIII. Concomitantemente, com o solo haitiano esgotado pela monocultura francesa, Napoleão entregou a ilha à sua própria sorte.
A República negra sofreu boicotes desde seu início e tornou-se um “encrave negro”. O jovem capitalismo industrial, baseado igualmente na exploração dos escravos, radicalizou as relações de produções, somando-se, então, o racismo. Sem terras férteis, sem possibilidade para cultivar suas possíveis matérias primas, a república negra seguiu à deriva, de crise política em crise política. Da segunda metade do século 19 ao começo do século 20, vinte governantes alternaram-se no poder e, dentre eles, 16 foram depostos e/ou assassinados.
De 1915 a 1934 foi ocupado pelos Estados Unidos (a mando inicial de seu presidente Woodrow Wilson), sob o pretexto de que seu governo não havia pago uma dívida contraída junto ao City Bank. Em 1957, François Duvalier – o Papa Doc – elegeu-se presidente e, com o apoio dos americanos, sob o signo da Guerra Fria. Implantou uma ditadura baseada no terror dos “tontons macoutes” (bichos-papões) e – ressignificando a origem africana – no vodu. Desflorestou o país na fronteira com a República Dominicana para ter os inimigos sob sua mira. Haitianos e dominicanos se odeiam, na ilha ou em Miami ou Nova Iorque, para onde inúmeros imigraram. Papa foi sucedido por seu filho, Baby Doc, em 1971. Baby permaneceu no poder até 1986, três anos antes da Queda do Muro de Berlim. A França lhe deu asilo político. Um padre, de esquerda, Jean-Bertrand Aristide, elegeu-se em 1990, renovando o sonho de 1804, o sonho da República negra dos ex-escravos Toussaint Louverture e Jacques Dessalines – país da independência. Mas forças doquianas permaneciam vivas e Aristide foi deposto, em 1991, pelo general Raul Cedras. A imigração tornou-se uma rotina, acentuada pela crise de Aritide/Cedras. O Conselho de Segurança da ONU decretou, em 1994, bloqueio total ao país.
Em 1994, Aristide foi reempossado por uma força militar norte-americana. Em 2004, foi deposto. Para controlar a situação tensa, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou o envio de uma força de mantenedores de paz, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah). Liderada pelo Brasil, a força tem atualmente 7 mil homens, entre eles 1.266 brasileiros. Sob o governo do Minustah, deu-se o terremoto , 35 vezes mais forte do que a bomba atômica lançada sobre Hioshima no final da Segunda Guerra.
Nota: baseado no péssimo artigo de http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/regis_bonvicino
O Ultimo Tango em Paris
Na escatologia temos um limite civilizacional. A merda, o cú, o cú do rato. Mas as palavras não dão a escatologia seu devido valor. Fica tudo chulo, julgado, efêmero. É uma escatologia que esquecemos facilmente, no baú das bobagens.
O sexo pode nos colocar diante de outra escatologia. Memorável. Prazerosa. Como a dor não aguda. Tenra. Mas ele, o sexo, também tem seus limites civilizacionais. Alguém agüentaria viver somente disso? Quantos agüentariam ir além, ao limite escatológico do sexo?
Até a escatologia é domada pelos paradigmas civilizacionais do ocidente. A ponto de ser desejável. E esse é um dos grandes interesses do público em o Ultimo Tango. Ele come o cú dela e proferindo apologias sobre a família. Mas todo mundo deseja a cena. E ponto.
Para mim o personagem de Brando está no limite. Escatologizando as relações. Com a sogra, com o cara na rua, com o amante da mulher, com a mulher do apartamento. A tristeza diante da traição e do suicídio escancara a falta de sentido em nossas crenças, desejos, limites.
O suicídio também é um limite civilizacional. Bem menos domado que o sexo. Não é a morte simplesmente. O suicídio é matar a morte. Tirar dela a natureza que a faz aceitável para nossa civilização. A busca de Brando é por um caminho que o leve a isso. Ele diz ao cadáver estar tentando em total desespero.
A garota não tem a menor chance diante do charme daquele cabelo e parca ao vento, do perigo e do anonimato sexual de um homem inteligente naquelas circunstâncias. É como um redescobrimento do amor de verdade, é a mistura de amor e paixão. O romantismo poético e cinematográfico do namorado é uma bobagem fraca diante das pulsões limítrofes da mente de Brando. Ela se apaixona perdidamente por tudo aquilo, como uma promessa (e essa esperança todo mundo também tem) de que a vida é melhor e menos tediosa quando escancarada, derrubando tudo.
O final é fantástico. Quando ela percebe que é um espectador, tenta a todo custo fugir da paixão. Concomitante, ele tenta, ainda cambaleante com a própria dor, recomeçar. Quer dizer os nomes. Casar com ela. Mas ela rejeita.
Nada de timming, o fato é que um pouco mais civilizado, ele não passa de um velho, de próstata inchada, querendo uma segunda chance na vida. Ela acha o tango um saco, e mesmo assim ele tenta, ainda no limite. Ela o mata, a meu ver, como metáfora de uma sociedade que nega constantemente aquilo diz desejar.
Um Brando memorável. Um Bertolucci questionador, provocativo e sensível. A trilha de Gato Barbieri e as tomadas de uma Paris intimista e fria. A fotografia dos anos 70. Uma visão realista e aterradora. Um dos filmes mais impactantes e tristes que eu já vi.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Onde realmente vivem os monstros?
O livro é de 1963. Quero crer que isso diz muita coisa. O filme é de 2009. Idem. O livro é lúdico. O filme psicológico. E ao contrário da lógica, o livro é imagético, o filme é dialógico. Spike Jonze há dez anos fazia “quero ser John Malkovick”. Maurice Sendak tinha 35 anos em plenos anos 60 quando escreveu o livro. O livro é infantil e o filme é sobre a infância, e é nesse jogo de opostos, que as fronteiras se nublam e tudo fica insólito, interpretativo, sinestésico.
Portanto, não sei se há lógica. Não sei se existe um correlato na psicologia que nos diga o que é o que no filme. Os monstros são os anseios, sentimentos, desejos do menino. Mas isso é fácil de entender. A idéia do projeto atormenta. O filme, não sei. Os animais do Jim Hanson são fiéis a imagem do livro, já o texto não (acho que o roteiro é do Kalffman – roteirista alucinado responsável por ”Confissões de uma Mente Perigosa”). A TV Colosso encontra Freud.
Na minha opinião é uma visão melancólica da infância. O que é ótimo. A invenção da infância ocidental e o biopoder a ela relacionado são um dos grandes fardos da modernidade.
Eu adorei a fotografia, e é clichê dizer que Jonze é foda. Já a interpretação esquisita do garoto e a trilha a lá Mallu Magalhães (nada contra ela - adoro) estragam a experiência. A mãe (que não existe no livro) também é desnecessária. Mas, ao fim e ao cabo, é sombrio demais para crianças (só atingirá as freaks), é hermético para adultos (só atingirá psicanalistas avançadinhos e gente do circuito culturete Amelie Polain). Não acho que era o que a Warner tinha em mente.