terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Empurrão ao terremoto

França e EUA não tem perdão. Precisam dar a vida pelo Haiti, o produto mais cruel de seus processos coloniais, inclusive sob a etiqueta “globalização”. Antes do terremoto um haitiano vivia com dois reais ao dia. Agora, menos. O terremoto, desastre imprevisível, se associa a vulnerabilidade mais do que previsível deste sistema que deu e dá errado. A ajuda internacional (necessária) hoje é um paradoxo.

Cedido pela Espanha à França em 1697, foi uma das mais ricas colônias das Américas. Produzia um dos melhores acúcares do mundo, batendo, no século XVIII, o Brasil em exportações nesse campo. O Haiti foi o segundo país a proclamar independência, conquistada através de luta popular, a mesma que libertou seus escravos ainda no século XVIII. Concomitantemente, com o solo haitiano esgotado pela monocultura francesa, Napoleão entregou a ilha à sua própria sorte.
A República negra sofreu boicotes desde seu início e tornou-se um “encrave negro”. O jovem capitalismo industrial, baseado igualmente na exploração dos escravos, radicalizou as relações de produções, somando-se, então, o racismo. Sem terras férteis, sem possibilidade para cultivar suas possíveis matérias primas, a república negra seguiu à deriva, de crise política em crise política. Da segunda metade do século 19 ao começo do século 20, vinte governantes alternaram-se no poder e, dentre eles, 16 foram depostos e/ou assassinados.
De 1915 a 1934 foi ocupado pelos Estados Unidos (a mando inicial de seu presidente Woodrow Wilson), sob o pretexto de que seu governo não havia pago uma dívida contraída junto ao City Bank. Em 1957, François Duvalier – o Papa Doc – elegeu-se presidente e, com o apoio dos americanos, sob o signo da Guerra Fria. Implantou uma ditadura baseada no terror dos “tontons macoutes” (bichos-papões) e – ressignificando a origem africana – no vodu. Desflorestou o país na fronteira com a República Dominicana para ter os inimigos sob sua mira. Haitianos e dominicanos se odeiam, na ilha ou em Miami ou Nova Iorque, para onde inúmeros imigraram. Papa foi sucedido por seu filho, Baby Doc, em 1971. Baby permaneceu no poder até 1986, três anos antes da Queda do Muro de Berlim. A França lhe deu asilo político. Um padre, de esquerda, Jean-Bertrand Aristide, elegeu-se em 1990, renovando o sonho de 1804, o sonho da República negra dos ex-escravos Toussaint Louverture e Jacques Dessalines – país da independência. Mas forças doquianas permaneciam vivas e Aristide foi deposto, em 1991, pelo general Raul Cedras. A imigração tornou-se uma rotina, acentuada pela crise de Aritide/Cedras. O Conselho de Segurança da ONU decretou, em 1994, bloqueio total ao país.
Em 1994, Aristide foi reempossado por uma força militar norte-americana. Em 2004, foi deposto. Para controlar a situação tensa, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou o envio de uma força de mantenedores de paz, a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah). Liderada pelo Brasil, a força tem atualmente 7 mil homens, entre eles 1.266 brasileiros. Sob o governo do Minustah, deu-se o terremoto , 35 vezes mais forte do que a bomba atômica lançada sobre Hioshima no final da Segunda Guerra.

Nota: baseado no péssimo artigo de http://ultimosegundo.ig.com.br/opiniao/regis_bonvicino

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