A independência tem um visgo. Em um mundo de hierarquias, ter suas próprias regras é facilmente confundível com plena liberdade. O famoso “pago minhas contas” é quase uma licença para matar que damos a nós mesmos. E é assim que atropelamos amigos, familiares, instituições em nome de nosso bem estar, de nosso equilíbrio, da chamada paz, que pode se traduzir por: ninguém pode me cobrar nada que eu não queira. Bom, aqui vai meu aviso, onde ouso isso, ouso dor.
Mas a moeda tem um lado inverso. A dependência tem o visgo para quem manda e para quem obedece. Quem manda, geralmente pais (em relação à família), mães (em relação aos filhos), gerentes (aos subordinados), patrões (aos empregados), maridos (a suas mulheres e amantes), filhos únicos (aos pais, principalmente mães), namorados ciumentos (em relação ao outro), o parente mais rico e soberbo (em relação ao resto da família), juízes, políticos e “adêvogados” (em relação aos desinformados), intelectualizados (em relação aos supostos inferiores), enfim, todos aqueles papéis e personas de grande potencial autoritário, ainda que de personalidades fracas, se viciam na aceitação do obediente, no prazer da governança alheia, de um modo mais geral, no “poder mandar”, dizer o que quiser, não ser cobrado, como nosso amigo independente lá em cima. O que obedece se vicia em migalhas de aceitação, em expectativa de reconhecimento, na ausência de responsabilidade (vicio em obedecer), na possibilidade de aproveitar-se do outro em surtos de benevolência dos superiores, na parceria com alguém supostamente mais poderoso, e por fim e mais triste, no medo.
O independente, o autoritário e o obediente são figuras dolorosas, fruto de uma grande cadeia de incompreensão. Não conhecem o prazer de uma fraternidade onipresente, não conhecem o prazer da tomada de consciência da imaginação sociológica, em geral, não são confiáveis, estáveis, ou verdadeiramente altruístas. Não entendem que liberdade é uma especulação humana sobre ser justamente aquilo que mais lhes falta, justamente uma outra especulação, ser humano.
domingo, 23 de maio de 2010
Como os nosso pais
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