terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O Ultimo Tango em Paris

Na escatologia temos um limite civilizacional. A merda, o cú, o cú do rato. Mas as palavras não dão a escatologia seu devido valor. Fica tudo chulo, julgado, efêmero. É uma escatologia que esquecemos facilmente, no baú das bobagens.
O sexo pode nos colocar diante de outra escatologia. Memorável. Prazerosa. Como a dor não aguda. Tenra. Mas ele, o sexo, também tem seus limites civilizacionais. Alguém agüentaria viver somente disso? Quantos agüentariam ir além, ao limite escatológico do sexo?
Até a escatologia é domada pelos paradigmas civilizacionais do ocidente. A ponto de ser desejável. E esse é um dos grandes interesses do público em o Ultimo Tango. Ele come o cú dela e proferindo apologias sobre a família. Mas todo mundo deseja a cena. E ponto.
Para mim o personagem de Brando está no limite. Escatologizando as relações. Com a sogra, com o cara na rua, com o amante da mulher, com a mulher do apartamento. A tristeza diante da traição e do suicídio escancara a falta de sentido em nossas crenças, desejos, limites.
O suicídio também é um limite civilizacional. Bem menos domado que o sexo. Não é a morte simplesmente. O suicídio é matar a morte. Tirar dela a natureza que a faz aceitável para nossa civilização. A busca de Brando é por um caminho que o leve a isso. Ele diz ao cadáver estar tentando em total desespero.
A garota não tem a menor chance diante do charme daquele cabelo e parca ao vento, do perigo e do anonimato sexual de um homem inteligente naquelas circunstâncias. É como um redescobrimento do amor de verdade, é a mistura de amor e paixão. O romantismo poético e cinematográfico do namorado é uma bobagem fraca diante das pulsões limítrofes da mente de Brando. Ela se apaixona perdidamente por tudo aquilo, como uma promessa (e essa esperança todo mundo também tem) de que a vida é melhor e menos tediosa quando escancarada, derrubando tudo.
O final é fantástico. Quando ela percebe que é um espectador, tenta a todo custo fugir da paixão. Concomitante, ele tenta, ainda cambaleante com a própria dor, recomeçar. Quer dizer os nomes. Casar com ela. Mas ela rejeita.
Nada de timming, o fato é que um pouco mais civilizado, ele não passa de um velho, de próstata inchada, querendo uma segunda chance na vida. Ela acha o tango um saco, e mesmo assim ele tenta, ainda no limite. Ela o mata, a meu ver, como metáfora de uma sociedade que nega constantemente aquilo diz desejar.
Um Brando memorável. Um Bertolucci questionador, provocativo e sensível. A trilha de Gato Barbieri e as tomadas de uma Paris intimista e fria. A fotografia dos anos 70. Uma visão realista e aterradora. Um dos filmes mais impactantes e tristes que eu já vi.

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