Não se trata de convenções internacionais. Estas são óbvias quanto à devolução do menino ao pai biológico. Não se trata de trauma psicológico, a família (e principalmente a avó) do garoto já havia se mostrado transtornada o suficiente para traumatizá-lo vida afora, como a maioria de nós da classe média/ média alta, herdeiros de brasileiros carcamanos desmiolados. Nem se trata da imprensa americana despeitada, noticiando o drama de um pai com trâmites jurídicos de um país exótico e distante. Tampouco se trata de acordos comercias que estavam a ser liberados pelos EUA. Não se trata de diplomacia. Trata-se dos Lins e Silva da vida. Da republiqueta oligárquica que estes pulhas da elite jurídica não se rogam de reproduzir por aqui. Trata-se da baboseira que se tornam os conceitos franceses, as leis e a republica na maior parte das ex-colônias pobres deste planeta. Trata-se de um mero coronelismo urbano típico de capitalismos periféricos com má distribuição de renda. Trata-se da noção de público desaparecer na cultura (des)política do Brasil. Trata-se de uma vergonha, um crime, trata-se de seqüestro, real e moral, em plena luz do dia em um selvagem paraíso da América do Sul. E seu filho e neto, meu caro leitor, não estará a salvo, porque estes putos ainda têm tanto esperma quanto o capital social e econômico que precisam para continuar a bárbarie Lins e Silva, Cavalcanti, Magalhães, Maluf e etc.
sábado, 26 de dezembro de 2009
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
A era da expressão
Andy Wharol foi visionário quando disse que todos teriam 15 minutos de fama. A proliferação da TV, a efemeridade da notícia, os “realitys”, a internet, o cinema digital parece ser só o prelúdio deste imenso processo decorrente do advento da imagem na modernidade.
Entretanto, nada disso deve ser analisado como autômato. São imbricadas relações entre os processos e modelos de desenvolvimento das sociedades ocidentais capitalistas, lê-se a revolução industrial, economia do conhecimento, mundialização do capital, e aquilo que os alemães convencionaram chamar de cultura de massa.
E aí entra nossa (minha e de Bia) percepção de hoje. Superamos a era da imagem e entramos na era da fala.
A cultura do RH, também conhecida como psicologia de botequim, há tempos anuncia aos quatro ventos para o profissional cuidar de sua aparência. A classe média B e C (as grandes vítimas dos experimentalismos sádicos e behavioristas dos psicólogos de empresa) correram as lojas, esconderam as tatuagens, cortaram os cabelos, combinaram a melhor gravata.
Até que de uns tempos pra cá, e não faz muito tempo, começou a disseminação da cultura falastrona. O indivíduo deve se impor, mostrar que está pensando, se comunicar. Timidez (seja trauma ou sensatez) é crime. Também pudera, é a era da comunicação. Até graduações picaretas com esse nome começaram a surgir nas faculdades.
De qualquer forma, não importa se você tem algo a dizer. Você deve dizer. Tem que ter uma opinião. E não basta tê-la, não importa como. Você deve expressa-la. Mostrar que está ali. Expor sua imagem interior. E tudo imparcial, apartidário, despolitizado, senão não vale, ofende, o parcial não sabe que o barato agora é a neutralidade, a hegemonia do Gandhi e seu senso comum sobre o caminho do meio.
Veja que curiosamente isso vem contaminado as relações privadas, os blogs e twitters, há um aumento abrupto e absurdo dos amigos entreteiners, dos palhaços da turma, da autoconfiança e auto-estima. Mas minha aposta é que isso começou com os gurus do emprego, no especulativo mundo do RH.
Nós, eu e Bia, que sempre falamos demais, estamos cada vez quietos (por vergonha disfarçada de bom senso) e agora eu fico atávico com toda essa falastria. Passa diante da minha vida tantos cursos. Tantas reuniões. Tanta vaidade, o pecado predileto do diabo. Bom, como dizia meu amigo, o mendigo João, só use contra mim...
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
O presente patético
O desejo de modelar o passado não é incomum. Talvez todos tenhamos vontade de mudar coisas na própria história. E de fato, por uma razão prática, isso é impossível com fatos, mas não com pessoas.
Na cultura cristã ocidental, voltar atrás, pedir desculpas, reencontrar pessoas é absolutamente o presente, em todos os sentidos. O problema é que, dada as variáveis, é possível que nada volte a ser como antes. Aliás, é bem provável. E ai tem o problema do presente patético.
Foi minha senhora que contou-me esse dito, que creio, ela própria inventou: muitas vezes um passado bacana, viraria um presente patético. Então, você, que não é mais o mesmo, fica com aquela pessoa que não é mais a mesma, vivenciando experiências sem qualquer sentido. E para que?
O segredo não é deixar tudo como está, mas ter a sensibilidade, o desprendimento e a estima de transformar, o mais rápido possível, o que vir a ser um presente patético em um passado definitivamente (e infelizmente) morto e enterrado.