domingo, 2 de dezembro de 2007

Quatro em um

Quando eu cheguei ali a roda estava armada. O menino mais bonito era também o mais feio, e seus movimentos desesperados esvaiam-se de sua imagem e verso rebuscado. O outro olhava suave, só ponderava coisas em tons amigáveis, e com alguns desvios de verdade era como se tivesse uma sensibilidade a cumprir pelo afeto que sentia aos dois primeiros. Havia ainda uma quarta parte, mas estava sempre distanciada e estrangeira dos demais, não que faltasse simpatia ao homem, em verdade era ele pura simpatia, mas as idéias de descaso arrastado, e uma certa delicadeza que lhe cabia, acabavam por não combinar com as tensões do grupo.
A ultima pessoa, de quem ainda não falei propositalmente, era quem em verdade lhes unia. Talvez, não por acaso parecesse ser única mulher num raio de cem quilômetros. Descrevê-la não é tarefa fácil, por conseguinte deve você imaginar que ela não era nada convencional, mas creio que não digo nas formas, digo nas maneiras. Seus movimentos eram raros nas moças da cidade, e se era uma forasteira, coisa que não sei, tinha sotaque leve. Estrangira sei que era.
Estava sempre chamando a atenção da roda, mas sem malicia, eram apenas toques e causos, sorrisos e bromas. Falava muito a respeito de si, quase o tempo todo. Era como se tivesse pressa para contar a própria vida, e era isso nos presenteava o pouco de sua fragilidade. No resto era como uma muralha sendo construída tijolo a tijolo.
O jovem mais feio, então, disputava exclusividade, vertia intenções amorosas desconcertantes, embaralhava-se em movimentos perigosos e falsetes mal calculados. O fato é que sua inabilidade era declarada, e de tão exposta, expusera todo um resto que deveria ser só dele, coisas que não publicisamos por óbvias razões.
Seus desfalques atormentavam a todos na roda. Afastava a quarta parte, confundia o olhar suave, desconcertava a moça. A mim, acabado de chegar, pouco afetava. Apenas me forcei a não sentir pena, mas dava-lhe compaixão porque conhecia bem os caminhos daquele labirinto.
A história não tem fim, trata-se de um grupo eternamente de pé na calçada da memória. São cinco, comigo na roda: a mulher-menina, raro canto inebriante de vida e movimento; um belo jovem, diminuido por ser culto refém de sua juventude e de seu tempo; um segundo rapaz iluminado e doce, perdido como se a vida por ele estivesse apaixonada; e o quarto, o sorriso afastado, quase um convite a sair daquela quadra de entranhas tão aparetemente mundanas.
Eu, quinto, sou o intruso locutor. Aqui dublo a voz velha e onipresente, que finge nunca se entregar aos outros quatro, mas declino-me a confessar ao amigo leitor: se finjo é porque nada sei sobre eles, é porque morro medo de meus heterônimos!

Um comentário:

mari.ana. cicuto. disse...

Apesar do sol lá fora,tive(culpa do trabalho) que ligar meu computador hoje.Quando é ligado, eu tenho(culpa da curiosidade,acho)que ler o que estão escrevendo.
Pronto,contei um pouco da minha relação com o computador.
Agora não posso esperar mais e vou ver o sol,mas te juro que fiquei com vontade de saber mais dos quatro.
Enquanto isso, quase que os imagino-isso se você permitir tal furto.