domingo, 20 de maio de 2007

Imperfeita Lembrança

Algumas vezes por dia penso em meus amigos. Não todos, tanto os dias quanto amigos. Mas se contarmos o mês chego a pensar na maior parte. Em um ano, certamente, penso em todos por algumas vezes. Que bobagem, não! Não importa o quando, nem quantas vezes, é na qualidade de minha lembrança que mora a importância.
É que tudo começa de repente. Geralmente num momento de descuido a lembrança começa num flash, um gesto de segundos que me provoca um incondicional sorriso no canto da boca. Em seguida, tento sentir a parte da minha alma que pertence àquela pessoa. É tal pedacinho por ela lapidado e não é raro que pra isso leve eu alguns minutos, seja porque perdi o pedaço, seja porque ele é grande demais.
Nesta fase as lembranças tendem a aumentar, mas apenas tendem! São lembranças rasas do cheiro e das sensações daquele tempo em que tive ao lado do amigo, ainda que o tenha visto há alguns minutos atrás. Sigo a lembrar do porque não o vejo mais e me preparo para entrar no terceiro estágio.
O terceiro estágio é o das perguntas. A vontade de saber como está, vontade de saber se lembra de mim, por fim se essa pessoa precisou de minha ajuda num fim de tarde qualquer e se vai me perdoar e contar o que perdi por lá não ter estado.
Neste instante todo meu desejo é canalizado na vontade de ligar, entrar em contato. Ligar ali, de qualquer jeito, mesmo que tarde ou cedo demais pra ligar. Ligar pra marcar, pra ver, pra perguntar. Tudo isso nutrido da esperança de reinicio de uma convivência diária, semanal que seja, convivência de série de TV, convivência natural, convivência que já nasce se sabendo impossível e mesmo assim guardando a esperança do quase.
E tudo termina de repente, em alguns segundos não tenho mais o telefone, nunca o tive, perdi o papel, o farol abre, não sei onde está o celular, alguém chega, alguém chama, caio no sono, volto a prestar atenção em quem me fala, bate o sinal, abro a geladeira, termina o comercial, toca a música que gosto no rádio, piscam as linhas do livro, e deixo pra um mais tarde infinito, me dá preguiça depressiva, fecho o chuveiro, o google me trás resultados demais. Tudo acaba num instante, e volta pro lugar de onde veio pra retornar dali dois ou três dias, dois, três meses.
Há quem diga que isso é nostalgia, há quem diga que é a dura pós-modernidade, digo eu que tudo isso me parece uma imperfeita pessoa tendo lampejos de sua imperfeita saudade.

Nenhum comentário: