Ainda no corredor vieram em grupo de sete. Pela heterogeneidade do grupo se tratava de confusão. Perguntaram-me se era eu um judeu. É comum em escolas particulares, volta e meia, alguém se proclamar nazista aos quatro ventos, quase uma espécie de ritual, como se estivessem chamando nós, os professores, para a briga.
Os alunos do corredor, carregando um sarcástico sorriso, queriam ver se o circo iria pegar fogo. Acusavam o colega, um albino recém chegado, de se proferir nazista até o último fio de cabelo. O próprio, quando adentrei a sala, já inquiria:
-O sr. é judeu professor? Nem pensei:
- Sou! E sou negro, sou mulher, sou latino e homessexual, sou gordo e anorexo, sou sua mãe e sua empregada, sou seu pai como empregado, sou desempregado, sou palestino, islâmico, sem-terra, analfabeto, brasileiro e acima de tudo, hoje, sou judeu!
O circo pegou. Perdoem todo pedantismo e o tom blasé que virá a seguir, mas soltei-lhes uma aula clássica para este tipo de ocasião. Falei da valorização vida no liberalismo, da abundância da morte na mídia e dos massacres genocídas do século XX, alertei para nosso distanciamento e frieza, evoquei Adorno, citei Hemingway, fui as torturas da SS e da Ditadura no Brasil e quando todos estavam devidamente chocados, saí à francesa 10 minutos antes, os deixando ali, sós com silêncio desconsertante. Terrorismo em aula? Emaranhado de contradições? Pouco importa! Apesar de puro teatro, aulas assim que acabam comigo, me demandam uma energia e evocam sentimentos esguios, todos arraigados a uma espécie de exclusivo silêncio, solitário, burguês e revolto, indignado e totalmente meu.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Adornidades
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2 comentários:
Estou com saudades de você e dessas suas aulas! Aliás, o Projeto todo.
Parabéns pela aula. Deve ter sido demais. Você é o melhor!
Beijos,
Talita
Saudades de você! E das suas postagens também. Quase não nos falamos. Queria te ver mais...
Beijões. Sinto muita saudade,
Talita
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