segunda-feira, 3 de julho de 2006

Parreira e a síndrome do Videogame

Nunca havia acompanhado uma Copa do Mundo. Aliás, me interessei tardiamente por futebol porque demorei a compreender, ou aceitar, a inexorável importância da bola para nossa identidade nacional.
Mas, com base na minha pífia experiência futebolistica, disse a um amigo no jogo contra o Japão que gostaria de ver autogestão na seleção brasileira. Explico: me irrita o clichê dos 180 milhões de técnicos, tanto quanto me irritava (porque agora perdeu o emprego) a teimosia nonsense do nosso pé de uva, o Parreira.
Pensei num regime democrático autogestor, com base nos princípios cooperativos dos mineiros ingleses do séc. XIX em plena concentração de Weggis, e até na CBF. Nossos jogadores fariam assembléias construindo consenso sobre tática, alternativas e escalações durante a concentração. A comissão técnica participaria fazendo seu trabalho e teríamos tudo, menos um técnico. A garra nasceria daí;
Foi o Zico que me deixou assim, inquieto. Havia um abismo entre ele e o grupo japonês que por alteridade percebi existir entre o Parreira e nossa seleção. No caso japonês o abismo era a língua e o feijão com farinha, se samurai não joga capoeira, talvez um dia ganhe jogando Karatê, o Galinho tentou. No caso do Pé de Uva o abismo era o que chamarei de síndrome das cores.
A teoria é simples, os times na verdade são cores. Não há grupos, tão pouco a dimensão humana na palavra time, time são cores e escudos com estrelinhas em volta. O resto é como no videogame, qualidades numéricas de cada jogador em esqueminhas pré equalizados. Ouvi dizer que no passado os times tinham os mesmos jogadores por anos, e que dificilmente mudavam de time, afinal, se torcia para um grupo. Por exemplo, sou São Paulino, mas a escalação do São Paulo desconheço. Ela muda a cada temporada, as vezes a cada bimestre. Ah sim, tive Telê, ele era como aquele velhinho que treinava o Rocky Balboa nos filmes do Stalone e com ele tivemos um time que durou, deixa me ver, três anos. Depois, não lembro.
Parreira comandou um time de videogame. E como no vídeogame cada jogada dependia de um único joystick. Tudo foi individual, mesmo quando coletivo. Não sou ingênuo, nosso Pé de Uva tentou um grupo. Ele estudou e sabe que nos anos 40 a matemática desenvolveu a teoria dos jogos. Cooperação é a única forma de todos vencerem. Muito básico, todos os treinadores devem se basear em coisas assim.
O problema é que time depende, ainda, da subjetividade humana, depende de um sentido. Bonequinho de vídeogame não tem garra porque não sente. O que faz de uma seleção um time, muito além do entrosamento, é o fato de que os jogadores torcem pras mesmas cores que representam. A identidade do país, a possibilidade de ser herói para os amigos famintos do boteco da esquina, a quase inata vontade de vencer o outro, sempre um estrangeiro. Fora comer o mesmo feijão com farinha.
O mercado do futebol transformou nossos jogadores em bonecos. Já os fetiches e o dinheiro que disso provieram tiraram dos mesmos a pátria, que já não é a nós brasileiros muito cara. A saudável rivalidade, motivadora da garra ao invés da guerra, são INTRAcontinentais e olhe lá.
Nosso melhor jogador em campo, o Lucio, que mora faz seis anos na Alemanha, disse na TV que sua disciplina na defesa brasileira era alemã. Pobre Lucio, ainda chorou na derrota pra França. Tomara que o choro tenha sido nosso. A maioria do time saiu cheia de sorrisos, abraçando os adversários e dando repostas conformistas. Por um instante lembrei dos Argentinos. Até recém contratados como o Cicinho e Robinho abraçavam rindo, o Zidane, a quem eles chamam carinhosos, Zizu. Em 94 não me lembro do Baggio rindo e abraçando o Romário, aliás, Rorô. Metade dos nossos compatriotas voltou para seus países de origem, bem longe do Brasil. Mas numa coisa seguiram a risca a tradição de uma nação, nossos bonecos de videogame saíram, todos, a francesa.

Um comentário:

Anônimo disse...

Que maximoooo!